sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Ler e ver Carolina Maria de Jesus

 

Depois do sucesso de Quarto
de Despejo, Carolina Maria de
Jesus morre pobre e 
ignorada pelo público 


Lemos em nossas salas de estar Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Lemos seu infortúnio despejado em papel nas páginas de seu 
Quarto de Despejo (Ed. Ática). Despojados em nossos sofás, fixamos os olhos nos dias morosos que se seguem dos idos 1950. É tão 2023 que a ficção que desejaríamos ver escrita, é na verdade a realidade que não gostamos de ser contada nos parcos cruzeiros que equivalem a  uma sopa de ossos, ou um pão duro recheado com desilusão. 

Na cozinha dos nossos desejos, o estrogonofe na panela não nos faz sorrir, mas o mesmo prato faria Carolina gargalhar, e seus filhos se acharem ricos com o banquete na mesa. Domingo tem macarronada? Tem, sim senhor, e quarta-feira, feijoada, as nossas graças sem risadas. 

Carolina, caso fosse contemporânea dos nossos dias, e o seu martírio televisionado - como o fora nos seus 1960 -, estaria você prestes a deixar o seu barraco para ganhar em minutos uma mansão de porcelanato, talvez nome para outro livro. Bastaria a seus filhos nos entreter com números circenses, como parte do quadro de um programa dominical, ou então que você dramatizasse em discurso a sua própria história a fim de manter alta a audiência de uma atração matinal, e de preferência com a sua roupa mais surrada, para fazer chorar a apresentadora elegantemente vestida. Por conseguinte, ela pediria para você contar as brigas na sua Canindé protagonizadas por bêbados esfarrapados e mulheres casadas que faziam pornografia com seus amantes, sob os olhares dos filhos da Canindé. Carolina, um instante. Meu recado é para você que está aí em casa. Está esperando o que para adquirir o seu seguro-residencial e assim proteger os seus bens diante da violência urbana que só cresce? Adquira agora mesmo, basta direcionar a câmera do seu celular para o QRCode que está aparecendo aí na sua tela. E no próximo bloco, mais história da escritora Carolina Maria de Jesus, não saia daí".

Gozamos e gozaríamos com as suas narrativas, Carolina, e por pouco tempo, porque como diz a sempre atualíssima máxima jornalística: “o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã”. E na manhã do dia seguinte estaríamos a nos emocionar - e por breve período, não nos esqueçamos disso - com outra história de "superação", como bem nos ensinam os coaches midiáticos.

Os 118 barracos da Canindé de Carolina Maria de Jesus multiplicaram-se por dez, cem, mil, e neles quantas Carolinas habitam os quartos de despejo - sem desejos - que sobrevivem em contemporaneidade com as salas de estar? Em 2023 Audálio Dantas não adentraria a favela, certamente assombrado pela atuação do tráfico e da milícia, mas muito provavelmente encontraria com uma Carolina perambulando pelas ruas de São Paulo a catar qualquer coisa com seus filhos sem pai, onde um deles - por sorte - seria apenas parado (e não morto) pela polícia após telefonema do cidadão de bem ao assustar-se com a presença do garoto que vende balas no farol.

Carolina, aquela sociedade que te explorara quando lhe pagava uma mixaria pelos recicláveis que você catava e pelos manuscritos que escrevia, hoje escancaradamente confirma que a sala de estar nunca olhou para o quarto de despejo, as moradias das Canindés em que habitam milhões de Carolinas, suas descendentes de infortúnio.

Por Elisa Marina 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A histeria conservadora contra a instalação de banheiros unissex

Shopping de Santo André adotou a ideia em suas
dependências/ Foto: Reprodução 
O Projeto de Lei 4019/21 proíbe, em todo o País, banheiros e vestiários públicos “na modalidade unissex”. O texto se refere a estruturas multigênero, livres ou neutras que podem ser utilizadas por qualquer pessoa, não apenas as do gênero masculino ou feminino. A proposta tramita na Câmara dos Deputados. O texto aguarda a designação de relator na Comissão de Desenvolvimento Urbano. 

Enquanto não há uma lei federal, legislativos municipais se articulam. No ano passado, em Minas Gerais, a Câmara Municipal de Juiz de Fora, aprovou, em 3 ª discussão, o projeto de lei (PL) que tem por objetivo vedar a instalação e adequação de banheiros e vestiários, em estabelecimentos públicos e privados, para uso por pessoas de sexos diferentes em locais de acesso do público em geral, como shoppings, bares, restaurantes, supermercados, agências bancárias, escolas, institutos, dentre outros. Em sua redação, o PL deixa claro que a norma não se aplica aos locais em que exista apenas um único banheiro ou vestiário, desde que garantam condições de privacidade individual a quem dele se utilizar. 

Políticos conservadores se esquivam de uma discussão mais racional para preservarem um discurso que dialoga com suas bases eleitorais, embasados por uma orientação religiosa que se distancia cada vez mais das demandas da sociedade.

Para além de uma deturpação do que se define como “ideologia de gênero”, uma fértil imaginação supõe que aquilo que foge a um padrão heteronormativo seria livremente associado a condutas exclusivamente sexuais, ou seja, banheiros unissex seriam ambientes propícios para a libertinagem sexual, ou então para o assédio e o estupro. Nesse sentido, seria oportuno lembrar dos casos nos transportes públicos. Logo, a racionalidade e a razoabilidade saem de cena para fazer valer a histeria delirante. Portanto, saindo do moralismo calcado na religião e se encontrando com a realidade, em qual das duas únicas opções (feminino e masculino) seria permitido a um homem entrar caso sua esposa acometida pelo Alzheimer necessitasse usar o banheiro? 

Em 2020, o Grand Plaza Shopping, na região central de Santo André, inaugurou o banheiro unissex com mais de 40 cabines. Enquanto isso, na Bahia a instalação de uma simples placa já foi o suficiente para causar uma histeria coletiva, quando no ano passado o Parque Shopping Bahia, localizado em Lauro Freitas na região metropolitana de Salvador, fora alvo de ataques na internet após instalar placas contra a transfobia em banheiros do centro comercial. As placas contavam com a seguinte mensagem: “Todos são bem-vindos. No Parque Shopping Bahia você é livre para usar o banheiro correspondente ao gênero com que se identificar. Transfobia não!”. Elas foram retiradas depois da polêmica levantada na internet.

Apesar de toda a discussão, o uso do banheiro conforme a identidade de gênero é um direito garantido pela Justiça para pessoas trans e travestis há pelo menos sete anos. A resolução federal de nº 12, de janeiro de 2015, estabelece que deve ser garantido o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada pessoa, tanto em espaços culturais, quanto de educação.

Restringir uma discussão com tamanha profundidade ao campo do moral-religioso-ideológico é ter uma visão míope diante de uma sociedade tão complexa. 

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Por Elisa Marina 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Falas, robotizadas, pluralizadas e repetidas falas

 

Amarelo-Verde-Azul (1925) - W. Kandinsky 
Óleo sobre tela - Museu de Arte Moderna de
Paris. Uma abstração em arte da semiótica
da comunicação?

Compartilhe. Me segue lá. Comenta. Ative o sininho. Avise os amigos. Chame os amigos. Compartilhe com os amigos. Deixe o seu like.  Curte. De que cidade você fala? 

Cola.

Mande um zap. CPF na nota? Se levar dois tem desconto. Não quer levar dois? Leva dois e parcele em três vezes. Preenche o cupom.

Bora.

Anote o protocolo. Vou passar para o setor responsável. Paga no pix. Me passa o seu pix. Anota o meu pix. Qual é o CPF pra ver se tem desconto?


      Life Smartphone, animação curta-    metragem criada pelo cineasta chinês Chenglin Xie, e que mostra por que o vício em smartphones pode matar você. 


Zap

Qual o seu zap? Passa um zap. Vou mandar áudio. Me envia pelo whats. Vou te mandar print. Posso ligar? Vamos por vídeo. 

Dá um salve.

Tem que engajar. Se inscreva no canal. Link na bio. Compartilha. Qual o seu Insta? Emoji. Gif. Link. Avatar. Foto de perfil. Foto de capa. Story. Stories. Status. Reels. Turbinar a publicação. 

Se as expressões acima lhe fizeram algum sentido é porque você não está tão desconectado ou desconectada do mundo. No entanto, para os que passaram dos trinta e muitos anos de idade, é provável que já tenha percebido que vai ficar cada vez mais raro ouvir um “me passa o seu telefone fixo”. 

A inteligência que conecta os humanos uns aos outros é um artifício de singularidades indecifráveis aos sujeitos passivos a ela. Como aquela canção de Paulinho da Viola, não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Somos navegados por algoritmos, e nessa condução cremos num poder de decisão acima dessa lógica que já está posta. Logo, faço porque todo mundo faz, e aqui com ou sem inversão da oração subordinada adverbial, mesmo porque o sentido vai ser sempre o mesmo, e no final das contas está todo mundo buscando o mesmo, o engajamento, que nada mais é que alcançar o maior número de seguidores possíveis para que seu produto, sua marca, ou mesmo você se torne um negócio lucrativo. A mamãe que filma e publica as primeiras palavras da criança gerando assim milhares de seguidores desperta o interesse do banco privado e de tantas outras mães que veem graça nas peripécias de seus rebentos. E quem aqui liga para os efeitos futuros dessa excessiva exposição a que crianças estão submetidas ante um futuro dominado pela inteligência que recria rostos e perfis para então publicá-los em sites de interesses escusos?

Curta, comenta, compartilha, afinal a imposição é a serventia da casa, e a obediência, uma obrigação do seguidor, afinal se todos fazem, por que não fazer?


Sobre a obra abstrata de Wassely Kandinsky


Considerada sua obra prima,  Kandinsky mescla as cores primárias de amarelo, vermelho e azul em complexas nuvens de cor, que se sobrepõem e se cruzam sem um padrão, e não formam objetos claramente identificáveis. Em muitos aspectos, essa liberdade de movimento foi uma síntese dos muitos novos movimentos artísticos em erupção na década de 1920. 

As formas se tornam imagens celestiais, desaparecendo e reaparecendo à medida que elas fluem pela tela, mudando de cor e lutando entre si pelo domínio. Pode-se claramente experimentar a crença de Kandinsky de que formas e cores tinham a capacidade única de explicar o invisível e o imperceptível. Como o próprio artista escreveu certa vez:  “A criação de uma pintura é a criação de um mundo.”

Por Elisa Marina 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Ao Deus arte, a viva vida de Zé Celso

Zé Celso durante a Mostra de
Teatro de Suzano, que ocorreu
ano passado/ Foto: Elisa Marina 
Por um mísero pedaço de chão, o todo-poderoso dono do baú trava na justiça uma batalha de anos contra o dramaturgo Zé Celso, que agora luta incansavelmente contra a morte no Hospital das Clínicas, pelas queimaduras em decorrência de um incêndio em seu apartamento na manhã de ontem. 

Já disse o quanto admiro esse artista que ultrapassa todas as fronteiras da liberdade do corpo e da mente para fazer jus ao teatro que idealizou com o seu Oficina, fundado em 1958.

De um lado, seu sonho verde de um parque no Bixiga, do outro, mais um empreendimento cinza a fazer a fortuna de SS aumentar mais e mais e mais. Figuras expoentes, cada qual em seu ofício, e que deixam em evidência o abismo colossal que há entre visões de mundo opostas. Dinheiro e arte não falam a mesma língua, o Deus dinheiro é incapaz de ouvir o Deus arte que, por sua vez, reivindica tão pouco ao Deus dinheiro para existir, que dirá resistir. 

As horas, os meses, os anos que se levam para produzir um texto, daí a produzir um espetáculo, para finalmente fazê-lo brilhar no palco de um teatro, não se traduzem em ganhos financeiros, pelo contrário, ficam tão abaixo disso que num instante final aceita-se qualquer merreca, porque o prazer de dar corpo ao idealizado em mente, e de modo tão solitário, supera a insignificância que donos dos baús da vida subjugam o artista. 

Triste sociedade que valora o concreto e da às costas para a poesia, que enxerga a geração de empregos pelo viés do mercado da produção de bens tangíveis que não o da literatura que provoca o desconforto, que endeusa os CEOs e diminuiu os SEUs Oh dramaturgos, que inutiliza IPhones tão facilmente e nem utiliza sabiamente as salas de teatro, que paga altos preços pelas cadeiras das arenas de futebol, e nem sequer se aproxima das arenas dos picadeiros onde se produz a arte das trupes mambembes. 

Em seus mais de oitenta anos de existência, a maior parte dele ouvindo mais aplausos que vaias, talvez o solo do chão paulistano seja mais fértil por onde pisou Zé Celso e nele despejou sementes do que aquele concretado pelas máquinas dos megaempresários que em deboche jogam notas de real em dobraduras de avião, e isso não tem nenhuma graça artista. 

Muitos vivas à arte, e a arte de ser de Zé Celso a própria arte. 

Textos e foto: Elisa Marina 

sábado, 27 de maio de 2023

Arte em vidas tatuadas pelas mãos de Edson Canela

 

A arte de Canela também se revela nos 
 quadros de pinturas a óleo/ 
Foto: Arquivo Pessoal

Partindo de uma filosófica análise sobre o próprio trabalho, em que tatuagem não é arte sobre arte, e sim, arte em vidas, Edson Canela, ao longo de seus quarenta anos de profissão, tem dado vida à sua arte nas mais de três dezenas de milhares de corpos que se fizeram – e se fazem – de telas para que um novo desenho ganhasse vida. No entanto, seria razoável dizer que tatuagem é uma sobrevida arte que se mantém viva até a finitude da tela que se permitiu tatuar, no entanto, como toda e qualquer manifestação artística, ela também sobrevive à existência do próprio artista, mesmo que nela este não imprima uma assinatura.

Tomo a liberdade de dizer que tatuagem é a arte sem identificação do artista, porém há ali uma cumplicidade entre tela e tatuador, e nesse caso pode-se afirmar que ter sido pioneiro e único tatuador por cerca de quinze anos e num tempo em que rebeldia e tatuagem andavam de mãos dadas, Canela tem voz consistente para traduzir as palavras e ideias em uma arte, conforme ele mesmo se descreve.

LABAREDA CARMIM - Um dia, seu corpo é uma tela em branco. Aí então você decide e, com muita insegurança, faz uma pequena tatuagem. Gosta. Faz outra, mas ouve falar da tal lenda que diz que “dá azar ter tatuagens em números pares”. E então, quando vê, já são cinco, sete, dezenas... Que vício é esse que nos atenta a deixar de lado a incômoda dor que o processo de tatuagem causa para tatuarmos tantas outras vezes o nosso corpo?

Sua especialidade é em tatuagem tradicional,
em preto-sombra e free-hand/
Foto: Arquivo Pessoal

Canela – No meu ponto de vista, geralmente, a pessoa pensa muito em relação à primeira tatuagem, [através da qual] ela quebra os próprios preconceitos, pois sempre tem alguém da família que é contra. Existe certa barreira com essa primeira tatuagem. É muito bom que a primeira seja feita de espontânea vontade, porque aquele que faz por fazer está sujeito ao arrependimento, aí faz a primeira, geralmente é pequena, embora hoje em dia nem tanto. Mas se ela escolheu um bom profissional e fez uma bela tatuagem ela acaba partindo para outras. Nesse sentido, não escolher bem, ou fazer por impulso é bem perigoso. A dor é superável pela vontade de fazer, e pra quem já fez sabe que não é uma dor assim tão grandiosa. No entanto, a mulher é mais resistente a dores do que os homens.

Não vejo como um vício [optar por várias tatuagens], mas como uma superação aos medos e dúvidas iniciais, o que agrega alguma força de vontade de querer repetir. Além disso, números pares não dão azar. É pura lenda.

LC- A pergunta acima tem a ver com a minha história. Fiz a primeira somente aos 27 anos de idade, talvez afetada por falas preconceituosas, que vão desde crenças religiosas, passando por preocupações com certo rigor social que pode haver num ambiente de trabalho, e chegando ao extremo de que a pele na velhice alteraria para pior o desenho feito na juventude. Claro que hoje, em 2023, muitas dessas falas ficaram para trás, mas para além da arte, tatuagens são também um acalento para a autoestima, quando camuflam uma cicatriz ou por reconstruírem a auréola do seio que retirou um câncer. Ainda assim você percebe que esse preconceito está restrito, hoje, a uma parcela ínfima da sociedade?

Canela – É, você teve uma cuidado de esperar até os seus 27 anos para que você estivesse mais madura no que você fosse escolher. Há falas preconceituosas, crenças de algumas religiões, e o social também, que inclui a família, sempre tem os que irão falar, e no ambiente de trabalho também... Se bem que isso aí [mercado de trabalho], cerca de vinte anos atrás, [o preconceito] era bem pesado. Por causa de uma tatuagem, você era prejudicado no serviço. Hoje, eu vejo que tem ainda o preconceito, mas ele é muito mais velado, porque a tatuagem atingiu a mídia e acabou se popularizando bastante. Antigamente também era muito difícil ter um tatuador. Aqui em Mogi, eu fiquei, por mais ou menos, uns quinze anos praticamente sozinho, não tinha outra pessoa que fazia tatuagem. Então, essa região do Alto Tietê inteira, praticamente tinha [o meu trabalho] como referência, o que propagou bastante a minha arte, e a quantidade enorme de tatuagens [mais de 27 mil] que eu já fiz deve-se a esses quinze anos com ausência de outros tatuadores. Hoje na cidade, se você for ver, tem cerca de 350, 400 lojas cadastradas. E isso tende a crescer também.

Com mais de 30 mil tatuagens feitas, seu 
diferencial é a arte corporal e filosófica/
Foto: Arquivo Pessoal

Sim, tatuagens acalentam a autoestima, desde que bem feita e agrade a pessoa que fez, o que incentiva a querer ter mais. Ressalto que é sempre importante escolher um bom tatuador. Já as tatuagens reparadoras agregaram valor à arte [de tatuar] foi bem aceita.   

LC - Tatuagem é fase. O desenho que te apaixonou aos dezoito anos de idade, pode vir a te constranger na fase adulta. No entanto, ela é parte da sua história, daquilo que te encantou no passado. No entanto, há profissionais que se recusam a recriar uma arte a partir de um  trabalho feito por terceiros, se não for esse o seu caso, poderia dar um exemplo de um caso sobre arrependimentos que tenha te marcado?

Canela – Sim, tatuagem é fase. Quando se é mais novo, o seu conhecimento é restrito, e geralmente a tatuagem é influenciada pelo tipo de vida que se vive, que pode ser por uma banda, ou para quem curte motociclismo. Hoje a área está muito diversificada, há artistas que vão para a área dos comics, do preto-sombra, das fotografias realistas... E tanto o jovem, quanto o adulto tem que analisar direito o que se vai escolher, porque essa tatuagem irá acompanhá-lo para sempre.

No meu conceito, a parte mais importante é a que antecede a tatuagem, que é a escolha, porque é para a vida inteira. Por mais bem feita que seja, a nossa pele envelhece, então vai causar algum transtorno nela também, como um desgaste de tinta, a própria pele vai criando rugas a depender do local, enfim, a pele se modifica, e a tatuagem se desgasta. Isso é um fato científico que não tem como fugir [risos]. Mas se é bem escolhida, ela te acompanha com a história que você implantou nela. Porém, o tatuador não deve ser responsável pela escolha e nem pela história da tatuagem, pois isso cabe ao cliente saber falar e pedir.

[Por outro lado] o tatuador está longe de ser um psicólogo, que vejo como uma área mais avançada, embora as pessoas conversem sobre suas vidas até no decorrer da tatuagem, talvez pelo grau de confiança que adquiri ali na hora que está fazendo, mas tem que ser bem filtrado, e não é o que eu vejo na grande maioria. Porque a partir do momento em que o tatuador influencia e se não é bem informado vai passar ao cliente informações também não tão boas, e assim vai ficar, porque o cliente permitiu. Isso é um grau de entendimento e compreensão de cada um. Eu, geralmente, procuro saber a respeito do que a pessoa quer fazer, porque eu tenho argumentos para analisar os desenhos com perguntas mais assertivas. E muitas vezes,  também, no decorrer dessa entrevista, eu consigo remodelar a ideia da pessoa. Ela chega com uma ideia e acaba levando outra. Quero ressaltar que em todas as minhas entrevistas para a imprensa, eu falo que o arrependimento com tatuagem é grande, porque não se escolheu um bom profissional, não soube falar direito o que queria. Tem tatuagens que exigem os estilos certos, por exemplo, traço fino ou traço grosso, um sombreado mais leve, um sombreado mais claro ou mais escuro, tudo isso é superimportante. As tatuagens coloridas são as que mais perdem a cor com o tempo, já a preto-sombra é mais durável por causa da nossa pele, do sol, do envelhecimento. Portanto, a preto-sombra é menos agressiva à pele, tem maior durabilidade, e quanto mais bem feita mais duradoura, e isso eu comprovo. Por exemplo, cores claras, num país como o Brasil, com um sol intenso, e com uma grande predominância de pessoas de peles morenas, a tatuagem colorida se adapta melhor em peles claras, com maior durabilidade. Já na pele negra, não se usa cor nenhuma, pouco sombreado, e não podem ser traços finos. Existe uma ciência para isso. E hoje, poucos tatuadores sabem disso, o negócio é pegar uma maquininha, e aplicar a primeira técnica que é fácil, já o aprofundamento, não. Eu tenho quarenta anos de tatuagem e continuo estudando. Essa semana mesmo, eu comprei um curso de um tatuador cuja arte eu admiro, pra aprender a técnica de tonalização do preto-sombra que ele usa, eu achei muito interessante para então aplicar nas minhas técnicas. Ou seja, quanto menos cuidado tiver, maior o arrependimento em tudo.

Outro fato, com essa demanda de pessoas que falam que fazem tatuagem, estes começam a fazer, fazem por dois ou três anos e depois param. Eu não posso julgar que essa pessoa fez algo errado, mas duvido que estudou ou que gostava do que fazia, que se aprimorou em técnicas, porque a partir do momento que está fazendo e recebendo por isso, passa a ser um trabalho. Ter referências sobre o tatuador é muito importante.

Os tatuadores mais gabaritados costumam ter preços mais caros que o normal. Isso é uma diferença enorme, e como a tatuagem se popularizou, as pessoas são influenciadas por preços. Por exemplo, o valor mínimo que eu cobro por uma tatuagem, eu já vi tatuadores que estão no mercado oferecendo quatro, cinco tatuagens pelo mesmo valor que eu cobro uma pequena. Então, a pessoa que não quer tomar cuidado nenhum, por que irá procurar um tatuador gabaritado para fazer uma tatuagem pequena se com um valor de uma ele poderá fazer cinco? E isso também [preço baixo] é um convite para fazer várias tatuagens. E é um perigo também, pois muitas vezes você está agindo pela emoção ou pela empolgação, aí sim você vai precisar de um psicólogo. Falo por experiência vivida pelos meus clientes, uma vez que o número de pessoas que me procuram para cobrir uma tatuagem é muito grande.

LC - Determinadas tatuagens são tendências de uma época. Lembro que no passado, anos 90 talvez, a moda eram as tatuagens tribais, embora seja muito provável que muitos nem sequer soubessem seus reais significados. Qual é o modismo dos últimos anos?

Canela – A tatuagem também acompanha um modismo, como você citou, tempos atrás eram as tribais, depois elas foram se modificando com o tempo, aparecendo outros tipos. Fazer sem saber seu significado tem a ver com o preço, ou com outras questões que não são vistas com seriedade, e de ambos os lados. Uma vez na minha equipe tinha um tatuador a quem eu questionei em reservador sobre o porquê [de optar por] àquele desenho visivelmente feio se haviam tantas outras opções mais bonitas. E então ele respondeu que havia sido uma escolha do cliente. Aí eu argumentei dizendo a ele que o meu estúdio obedece a determinadas regras, e dentro daquela proposta [da escolha do cliente] havia outros desenhos mais bonitos. Ainda assim ele foi categórico em afirmar que não havia nada a ser feito porque aquela era uma escolha do cliente. Ao final daquele trabalho, eu o demiti porque aquele não é o modelo de funcionamento do estúdio. Porque a minha preocupação é evitar um futuro arrependimento do cliente. E é um gasto a mais no caso de refazer uma tatuagem, mesmo porque ao refazer não se tem a mesma qualidade do que aquela que você tem para fazer numa pele sem nada por baixo.

LC - Um tatuador é um psicólogo em potencial? Há quem chega até o seu estúdio sem ter a menor ideia do que tatuar, e a partir de uma conversa, você traça um perfil daquele cliente e juntos chegarem num consenso de qual desenho melhor atende aquela expectativa?

Canela – Muita gente se coloca como um psicólogo do cliente. Eu acho um erro imenso, porque a psicologia eu vejo de uma parte muito importante, vejo que é um estudo muito legal pra que se acerte a pessoa ao seu centro. Então, um bom tatuador pode ter uma análise legal dentro do perfil da arte e o que a pessoa quer, mas denominá-lo como psicólogo, não. O tatuador tem que ser criativo, ser artista, e trabalhando com boa-fé em relação ao cliente, vai ter uma boa criatividade e vai chegar num consenso bem legal naquilo que melhor atende a expectativa do cliente. Mas não vamos levar para esse lado psicológico que vai alimentar o que eu não acho nada legal. Cada um na sua área, e muitas vezes tatuador não tem estudo nem de desenho, vai fazendo com informações através do Youtube, Instagram... Então, entre tatuador e psicólogo vamos colocar algo muito distante entre um e outro. Tatuador tem que ser artista e ter uma boa criatividade, aí ele está num bom caminho.

LC - Conforme seu perfil no Instagram, são mais de trinta e sete anos de profissão, com mais de 27 mil tatuagens espalhadas por aí, dentro desse percurso, e embasado por uma ética pessoal, que tipo de trabalho você não se autoriza fazer?

Canela – Devido ao tempo que tenho de tatuagem, e de uma boa escola que eu tive, pois comecei em 1984, com pouquíssimas informações, e de lá até próximo de 1990, eram poucos tatuadores. Eu, aqui em Mogi, alguns em São Paulo, onde tive o privilégio de conhecer uma equipe de italianos que trabalhavam por lá, e eles estavam com o intuito de divulgar a tatuagem no Brasil, e como eram de outro país, com outra cultura, eles divulgavam a tatuagem como arte, tanto que na minha época foram muitos preconceitos com pessoas tatuadas e  quem fazia tatuagem também era mal visto. Por isso que a grande maioria dos profissionais respeita quem veio lá de trás. Hoje é muito fácil, há ótimas máquinas, ótimos materiais, agulhas perfeitas, desenhos perfeitos, aonde você procurar encontra informações.

Eu saí de Mogi porque eu tinha conhecimento de um tatuador chamado Marco Leone lá em São Paulo. Não se tinha telefone, nem internet. Era preciso pegar ônibus e ir pra São Paulo e  tentar encontrar qual era o bairro porque não era divulgado, era muito restrito. Depois desse contato, fui recomendado a fazer cursos de desenho, estudei na Escola Pan-Americana de Artes, no Liceu de Artes e Ofícios, aqui em Mogi estudei com o Vitor Wuo, grande artista que me ensinou muito em desenho. E estudo eu faço até hoje, desde 1984 até hoje. Então o interesse do tatuador vai com esse amor à arte que ele tem. Isso não é modismo. Eu participo de convenções internacionais onde se discutem novas técnicas, quem vem de fora traz sempre uma novidade. Existe um intercâmbio onde, por exemplo, eu posso trabalhar em outros estúdios, ou seja, tudo isso tem um investimento financeiro e de tempo. Acaba sendo uma vida direcionada a essa arte. Não é à toa que um ou outro acaba adquirindo nome. O que eu tenho investido em feiras e eventos, é um valor que chega à casa das centenas de milhares de reais, além disso, meu estúdio equipado e atende às normas da Secretaria de Saúde. Não é ser um “tatuador modinha”. E veja, não há nada de errado, essa pessoa não está fazendo nada de errado, porque vamos lembrar, quem escolhe é o cliente, logo a responsabilidade é de quem escolheu. Você tem hoje os bons, os médios, e os não tão bons.

Eu não faço trabalhos que denigrem a imagem da pessoa, frases que não são positivas, porque eu não preciso ser compatível com a rebeldia ou com algo que não seja produtivo para aquela pessoa, e que posso denegri-la e ela não tem noção disso. Olha só o que eu aprendi em 1990 com a equipe italiana: evite fazer coisas como times de futebol, denominações religiosas, nomes de pessoas, com exceção de pai, mãe e filhos que são definitivos na vida, porque isso são escolhas passíveis a mudanças, ou seja, você está sujeito a mudar de religião, de times, não gostar mais de determinada banda, isso acontece com todos nós. Portanto, evitar esse tipo de tatuagem é sempre bem-vindo. E para explicar isso, e o cliente aceitar é necessário ter conhecimento. Por outro lado, pode-se fazer algo que não seja tão grande ao qual a cobertura não seja tão difícil, aí é possível para a pessoa curtir aquele momento e se vier a se arrepender já fica acordado com o tatuador uma cobertura da mesma. Embora haja no mercado o laser, não é certo dizer que o laser apaga a tatuagem por completo, porque assim que se retira a tinta da pele, vai ficar uma marca, um registro de onde foi tirado.

LC - Em dezembro do ano passado, por determinação judicial, o tatuador Neto Coutinho foi obrigado a cobrir a tatuagem do rosto de uma criança negra feita durante a convenção Tattoo Week do mesmo ano. A polêmica se deu porque o tatuador usou sem autorização da família do garoto nem do fotógrafo Ronald Santos Cruz a fotografia de uma criança de onde originou a tatuagem. Qual é sua análise sobre caso? A ação judicial foi uma censura ao trabalho artístico, ou independente da arte, ou cabe ao tatuador antes procurar obter informações sobre uma foto cujo cliente não tem qualquer grau de parente com o fotografado?

Canela – Com relação a essa polêmica é o seguinte. Através da internet, a gente pode pegar várias imagens. Agora, é muito bem-vindo quando você pegar uma imagem colocar o crédito da imagem, o que não foi o caso. Praticamente quem acionou isso não foi a família, foi o fotógrafo através dos direitos que ele tem. E se ele tinha direito, e ao ver que o evento era gigantesco – é o maior evento que se tem no país – usou da ação judicial para requerer os direitos que ele tem, porque não foram colocados os créditos, muito menos foi pedida uma autorização. Porque geralmente se está na internet, e você quer usar, entra em contato com o fotógrafo, e é muito difícil [o profissional] negar. Se ele negasse, não estaria ali na internet para todo mundo ver, ou teria alguma especificação de direitos autorais. Mas cabe a ele o direito de requerer legalmente o direito que é dele.

Edson Rodrigues Pereira, conhecido como Edson Canela, é artista, tatuador, filósofo e espiritualista. Dedica-se há quarenta anos à arte na pele. Faz parte da segunda geração de tatuadores do Brasil, com especialização de novas tendências, como na arte corporal e filosófica. Participou da 1ª Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil, em 1990. Hoje, costuma ser convidado para diversos eventos no Brasil, como tatuador ou jurado.

Por Elisa Marina

terça-feira, 23 de maio de 2023

A bolha e a placenta, aconchego e acolhimento

 

O Mito da Caverna é uma alegoria narrada por
Sócrates que ilustra a busca pela verdade/
Ilustração: Sociologia Líquida

Numa comparação metafórica, poderíamos dizer que a bolha está para o sujeito assim como a placenta para o bebê, pois no aconchego e no modo passivo em receber os nutrientes responsáveis pelo seu desenvolvimento biológico é que a vida intrauterina se desenvolve. Nos grupos sociais, que podem ser tanto de ordem religiosa quanto política e até culturais, as informações circulam num ambiente acolhedor e aconchegante aos sujeitos pertencentes a estes grupos, que as recebem de modo passivo e acolhedor, abrindo caminhos para a confirmação de um pertencimento nos mesmos, formando, assim, uma bolha. Compactuar com as falas, copiar modos de agir e se vestir dos demais integrantes do grupo, é fazer valer esse pertencimento, que fora dele, desse organicismo vivo, cabe ao indivíduo buscar por meios próprios a fim de garantir a sua existência. Um feto não se desenvolve fora da placenta, logo um indivíduo é capaz de subsistir alheio aos grupos sociais? 

Tomando como exemplo o Mito da Caverna* contado por Sócrates na obra A República, de Platão, somos muitas vezes pessoas que estamos trancafiadas dentro de uma caverna, amarrados com correntes pelos pés com a incapacidade de virar a cabeça para a abertura da caverna. E nós estamos olhando para a parede, atrás de nós tem uma pequena mureta onde passam pessoas com coisas, só vemos a sombra das coisas na parede. Como tem ruído, a sensação é que essas coisas que estão na parede falam e têm vida. Um dia, conta Platão, uma das pessoas que estava na caverna escapa, conseguindo romper com o grilhão que a mantinha por lá. Conforme explica o filósofo Mario Sérgio Cortella, no episódio Bolha do podcast A Grande Fúria do Mundo, “qual é a primeira coisa que acontece quando você sai de uma caverna? Perde a capacidade de enxergar, porque a luz do sol é forte. E a tendência de quando se sai da caverna, ou da bolha, é querer voltar correndo para dentro dela porque o mundo externo é muito desconfortável, fere a visão, fere a percepção. Quando você vai pouco-a-pouco se habituando [com o mundo externo] e vê que o que está fora da caverna também existe e, muitas vezes, é mais autêntico do que aquilo que está dentro da caverna, e se você é alguém que tem afeto pelas pessoas que ficaram, você volta pra dizer a elas que o que está na caverna não é verdade, ou não é tão-somente uma única verdade. E qual é a consequência disso tudo? [As pessoas da caverna] matarem a pessoa que voltou, pois esta busca (para o grupo) tirar a ilusão [verdade] de suas crenças”.

No livro Conformismo, Charles A. Kiesler e Sara B. Kiesler, dentro da perspectiva da psicologia social, discorrem sobre a influência do pertencimento em grupos a partir de dois efeitos, a obediência e a aceitação íntima. Como exemplo, os autores iniciam o livro com uma nota publicada em setembro de 1954, num jornal no norte dos Estados Unidos, que dizia o seguinte: Profecia de Planeta. Clarion diz à cidade: fuja dessa enchente, ela nos atingirá no dia 21 de dezembro. É o que o espaço diz a uma habitante de nosso subúrbio.

A profecia tinha sido dada por uma “Sra. Keech”, que afirmava não ser sua, mesmo assim conseguira reunir alguns seguidores que também acreditavam na profecia e se preparavam para o grande acontecimento. Quando em 21 de dezembro não houve a tal enchente, muitos deixaram o grupo. No entanto, as pessoas mais comprometidas com a profecia não apenas resistiram em suas crenças depois desse desmentido, como também começaram a recrutar novos crentes e novos membros para o grupo.

Todos nós pertencemos a grupos de pessoas. Além disso, tais grupos influem em nós. Nosso comportamento e nossa atitude se modificam a medida que interagimos com os outros. Nem todos os participantes do círculo da Sra. Keech acreditavam em sua profecia. Alguns eram cépticos mas tinham outras razões para agir de acordo com o que era esperado e exigido pelo grupo. Os dois tipos de pessoas – os cépticos obedientes e os crentes verdadeiros – eram conformistas, pois apresentavam alguma forma de mudança na direção das expectativas do grupo. Esses dois tipos de conformismo foram denominados pelos psicólogos sociais como obediência e aceitação íntima.(...) A obediência refere-se ao comportamento explícito que se torna mais semelhante ao comportamento que o grupo deseja que seus membros apresentem, independentemente das convicções íntimas do ator. A pessoa se comporta como o grupo deseja que o faça, mas, na realidade, não acredita naquilo que está fazendo. A aceitação íntima refere-se a uma mudança de atitude ou crença, e na direção das atitudes e crenças do grupo. Nesse caso, a pessoa pode, não apenas agir de acordo com os desejos do grupo, mas também mudar suas opiniões, de forma que passe a acreditar naquilo que o grupo acredita.

O nascimento é um processo doloroso que obriga o bebê a deixar para trás o seu pequeno e recluso mundo, sua caverna, e romper com a placenta, sua bolha, que até então o mantinha vivo, para a partir de então aprender a viver fora dela. Assim somos, depois de sairmos dessa placenta, e uma vez crescidos continuamos enlaçados a bolhas de aconchego em busca de pertencimentos; romper com os grilhões que nos mantém vivos nesses grupos é um processo de dor, por isso vai de cada um perceber quando é a hora do próprio parto, mas claro, desde que se queira nascer.

*O Mito da Caverna, de Platão, contada por Sócrates, é uma alegoria que ilustra a natureza da realidade e a busca pela verdade. Na história, Platão descreve um grupo de pessoas que foram criadas e vivem em uma caverna desde o nascimento. Todos estão acorrentados, com as cabeças viradas para a parede, sem poder mover-se ou ver a luz do sol. O único mundo que conhecem é aquele que elas enxergam projetado na parede da caverna. Ou seja, a única realidade que os habitantes da caverna vivencial são as sombras dos objetos que passam em frente a uma fogueira. Eles não têm conhecimento do mundo exterior. No entanto, quando um dos prisioneiros consegue se libertar e sair percebe que a realidade que ele conhecia antes era uma sombra da verdadeira realidade.

Por Elisa Marina

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Gentilezas a uma demanda para a subserviência

Bajulação que enlaça com uma demanda
para uma subserviência

O coach idealiza e persuade. Aquele que o escuta, convocado à ação, aceita sem questionar. E então novos modelos de atendimentos são estabelecidos nas relações comerciais, onde afeto é a palavra da vez. Sai o velho conceito de insistir na venda dentro de uma abordagem formal e direta entre os sujeitos para dar entrada com vistas a criar meios de afeição ao outro, no caso o cliente,  a fim de tocar em seus afetos para daí extrair o objetivo final, que é a venda. Logo, o café cordialmente oferecido traz, em última instância, a mensagem subliminar de que aquela gentileza irá receber como troca a compra de um produto ofertado.

Frente a esse competitivo capitalismo selvagem, onde a cada instante surgem novas práticas  com modelos de se buscar um diferencial frente ao concorrente, é preciso inovar para se destacar,  vender para lucrar. E então chegamos ao admirável novo mundo das gentilezas nos estabelecimentos comerciais, que só acontecem porque tem um apelo inscrito naquele a quem a cordialidade é direcionada.

O cliente entra, e o que antes resumia-se a um simples cumprimento entre as partes, hoje, mostra-se como abertura a laços afetivos. "Olá, bom dia. Me chamo Jéssica, e você, meu amor?". Sim, sou o amor de quem sequer conheço, e esse tal "amor" será repetido à exaustão até a finalização da venda. "Quer um café? Procura o que?". Estou numa farmácia e o tratamento me faz lembrar uma loja de sapatos. "Quero uma amoxicilina de couro número 36", penso. "Me informa o seu CPF, amor, para ver se tem desconto". Aqui, o atendimento totalmente personalizado, me garante um desconto especial, e somente para mim, chupa invejosos. Qualquer semelhança com o cara que disse ter ligado para você e somente para você porque bateu saudades não é mera coincidência.

Na paquera com o caixa, também meu amor, (sou dele e ele é meu) ele também me pergunta pelo meu CPF, dessa vez me faço de difícil e digo que não vou lhe informar. Adoro quando eles fazem biquinho e me convencem da possibilidade de um desconto ainda maior. Como sou fácil.

Vou para a loja de roupas e por lá a suruba se dá assim que entro no estabelecimento, com muitos amores vindo ao meu encontro. "Oi meu amor". Vou dar uma olhada apenas. "Tudo bem, meu amor, qualquer coisa é só me chamar". Não chamo, estou no fundo da loja e fora do radar dela, mas próxima ao olhar do rapaz que elogia a minha bolsa dizendo que o modelo tem tudo a ver com a vestido no manequim sem rosto. "Estava te esperando". Um manequim sem vida intuía que eu entraria na loja para vê-lo?

Na doceria, a formalidade é elevada à quinta potência quando sou chamada de senhora. Logo hoje que coloquei essa botinha tão modernosa e uma saia nada casual? Sinto-me projetada à Colombo de 1920, com um casquete cinza discreto e um vestido longo esbarrando no chão de mármore. Pausa dramática. Sou uma mulher negra, na Colombo de outrora eu não estaria sendo servida, mas servindo a madames insuportáveis que me olhariam de cima abaixo e de quem aceitaria passivamente toda e qualquer petulância.

Voltemos a 2023, ano em que daqui uns dias serão completados 135 anos do fim de uma escravidão que durou quase quatrocentos anos  mas que até hoje da sinais de  que suas marcas não saírão da sociedade tão cedo.

Os casos acima mostram que a subserviência é muito mais uma resposta a uma demanda social do que uma crítica aos funcionários que para defender o pão de cada dia são obrigados  a obedecerem cartilhas de boas práticas na relação com os clientes. Vivemos num país com resquícios coloniais onde babás ainda vestem-se de branco mesmo que sua função exige interagir com a criança com brincadeiras que certamente farão sujar o uniforme de trabalho. Porém, seus patrões formam a massa dos sujeitos que ostentam seus títulos, com evidências claras de exigir uma subserviência daqueles a quem julgam como profissões inferiores. Ter do outro o agrado em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar a mercadoria, é preciso bajular o cliente.

"Sua compra foi recusada". Acho estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo na conta. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de amor na riqueza e na pobreza? Sou, então, tomada de uma saudade, quando o amor era declarado em um cartão, mas naqueles de papel.

Por Elisa Marina

  .  Porque vivemos num país onde babás ainda usam branco mesmo que para brincar - e se sujar - nos parques, com sujeitos que dizem de seus títulos muito mais do que de seus, carentes de paparicos e atenção. Ter no outro o papel daquele que lhe agrada em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar-se, é preciso bajular.
"Sua compra foi recusada". Ih, estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de na riqueza e na pobreza? Sou tomada de uma certeza: o amor


      .  Porque vivemos num país onde babás ainda usam branco mesmo que para brincar - e se sujar - nos parques, com sujeitos que dizem de seus títulos muito mais do que de seus, carentes de paparicos e atenção. Ter no outro o papel daquele que lhe agrada em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar-se, é preciso bajular.
"Sua compra foi recusada". Ih, estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de na riqueza e na pobreza? Sou tomada de uma certeza: o amor

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Fátima al-Fihri, a muçulmana que criou a primeira e mais antiga universidade do mundo

 

Fátima al-Fihri, mulher muçulmana nascida
no ano de 800

Começou na África, e pelas mãos de uma mulher, o que se pensa, se sabe e se entende por ensino acadêmico, e mais precisamente na cidade de Fez, no Marrocos, que surgiu a mais antiga instituição de ensino superior do mundo - e ainda em funcionamento – a Universidade al-Quarawiyyinn.

Com a herança deixada pelo pai, um comerciante rico que se estabeleceu em Fez vindo de Cairuão, hoje Tunísia, e do marido, Fátima al-Fihri, mulher árabe e muçulmana, mandou construir, no ano de 859, uma mesquita que se transformou na famosa universidade. Fátima quis construir um edifício suficientemente grande para que houvesse espaço para toda a população, que crescia cada vez mais. A partir do século X, a mesquita de al-Qarawiyyinn tornou-se o primeiro centro de estudos religiosos e a maior universidade árabe do Norte de África, onde ocorriam regularmente simpósios e debates, uma vez que à época, mesquitas, além de locais de culto e caridade, também serviam de locais de estudos, logo, um espaço de disseminação do conhecimento.

A instituição tornou-se um lugar fomentador do saber, de interações políticas e sociais, e enquanto a Europa estava mergulhada no obscurantismo da Idade Média, em Fez já eram feitas importantes contribuições para a filosofia, matemática, engenharia, arquitetura, medicina, cartografia, e que só seriam descobertas pelo ocidente durante a Renascença. Um dos seus alunos ilustres foi o Papa Silvestre II, responsável por introduzir e popularizar os números arábicos na Europa e o conceito do zero.

A universidade criada por Fatima é, de acordo com a UNESCO e o Livro dos Recordes do Guiness, mais antiga que as primeiras universidades europeias, pois é considerada como data de referência o ano em que al-Quarawiyyin foi fundada como mesquita. Atualmente, a universidade oferece cursos de graduação, pós-graduação e programas de doutorado, e dispõe de cinco periódicos especializados.

Nascida em 800, até hoje a vida de Fatima al-Fihri é guardada de muitos segredos, inclusive a data da sua morte, porém seu legado deu nome, em 2017, à criação de um prêmio na Tunísia que visa apoiar iniciativas que encorajem o acesso das mulheres à formação profissional.

Por Elisa Marina

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Dançando nos campos do Senhor

 

Dança dos Anjos - Leonid Afremov

Cardiologistas recomendam. Endocrinologistas indicam. Neurocientistas orientam. Ginecologistas aconselham. Seja qual for o especialista, exercícios físicos são sinônimos de saúde na opinião de dez entre dez profissionais da área. Sabemos disso, e pode ser até que intuitivamente desde que nascemos, basta observar um bebê em seus primeiros meses de vida: mãos, braços, pernas e dedinhos exercitam-se mutuamente mesmo com o corpo em repouso. Portanto, a máxima é: quer viver mais e melhor, mexa-se!

Para um corpo que já experimentou a dança, para mim, optar por essa modalidade como meio de exercitar o corpo, não foi uma escolha muito difícil, mesmo depois de décadas de músculos adormecidos pela falta de uma rotina dançante. Agendo uma aula experimental na primeira opção que o Google me sugere, uma escola que ensina o Ballet Contemporâneo, estilo que eu nunca havia praticado.

O local é um espaço simpático que vou conhecendo na companhia da proprietária e diretora artística. No entanto, saber que em uma das salas locada acontecem reuniões de cunho religioso me causou certo incômodo, porque a cultura que eu acredito, credito, e valorizo, é a da arte livre e libertadora. Sem questionar, deixei de lado julgamentos precipitados e vi aquilo como um negócio que pudesse gerar lucro para a escola.

Sou apresentada à pessoa a quem coube fazer aumentar a lista de incômodos, a professora era nova e para minha surpresa as duas adolescentes com quem havia cruzado minutos antes no vestiário seriam minhas colegas de turma, isso já foi mais que suficiente para eu perceber o quanto destoante da turma eu era.

Antes dos primeiros passos de ballet, vamos aos primeiros passos sociais, as apresentações. Percebendo que eu estava longe de ser uma teenager, a professora não hesita em deixar claro que a minha inabilidade dançante não seria um problema. Eu já dei aulas em outras escolas, a minha aluna mais nova tinha uns seis anos, e a mais velha, uns 45. Palavras escritas são impossíveis de descrever aquele enfático QUARENTA E CINCO ANOS!

Começo a me arrepender por não ter atravessado as grades da janela, fugir teria me poupado momentos constrangedores que eu sabia que certamente viriam. “A minha aluna mais velha tinha 45”, a frase ainda sussurrava no ouvido quando interfiro dizendo ter três anos a mais que a aluna de 45 que eu sequer conheço mas de antemão me solidarizo por deixá-la no humilhante penúltimo lugar na escala sênior das alunas idosas.

Contudo, como humilhação pouca é bobagem, meus movimentos coreográficos desalinhados aos das fofoletes só confirmam que aquela não seria a minha turma, portanto, prefiro ser a aluna observadora do que a executora, e esperar ansiosamente pelo momento derradeiro, o relaxamento. Deitada, meu corpo nada cansado não tem do que relaxar, ao menos para dar à mente condição de elaborar o que foram esses noventa humilhantes minutos, e que culminariam na razão do título dessa crônica. Fechem os olhos! Ela ordena, e eu obedeço. Aproveitem para relaxar o corpo. Mais? Ah, eu esqueci de orar no começo da aula. ORAR? FOI ESSE O VERBO EMPREGADO? Ou então, ornar, certo? Eu orno, tu ornas, nós ornamos, e elas ornam pés e mãos.

Senhor, peço a ti que se manifeste através da arte. E uma sequência de blá-blá-blá frases religiosas de efeito coaching se sucedem. Saí de lá com os meus credos, o primeiro, aquele que sigo de forma íntima e pessoal, e o outro, o espanto de perceber como nossos corpos são conduzidos de modo que nem a sua vontade seja escutada. Ali, qual era - e ainda é - o meu desejo? Dançar! Mas não nos campos do Senhor.

Texto: Elisa Marina

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Marchinhas de Carnaval, a resistência de um gênero que atravessou os séculos

 

Chiquinha Gonzaga (1847-1935) foi uma
compositora, pianista e regente que com sua
obra mudou a história da música brasileira
Foto: Revista Galileu


Qual é o problema se é grande a cabeleireira do Zezé? Não importa o seu tamanho, não convém cortar a força o cabelo de Zezé, assim como querer beijar a Colombina sem que ela leve o Pierrô a mal simplesmente porque é Carnaval.

Se o parágrafo acima lhe pareceu confuso talvez seja porque Carnaval para você esteja desassociado às históricas marchinhas, gênero de música popular que foi predominante no Carnaval dos anos 20 aos anos 60, sendo a primeira, Ô Abre Alas, uma composição de 1889 de Chiquinha Gonzaga, e feita para agregar ao cordão carnavalesco Rosas de Ouro.

De origem portuguesa, as marchas carnavalescas são descendentes das marchas populares portuguesas e partilham com elas o compasso binário das marchas militares embora bem mais acelerado. Porém, inicialmente as marchinhas eram calmas e bucólicas, mas a partir da segunda década do século XX elas passaram a ter seu andamento mais acelerado. Isso aconteceu devido a influência da música comercial norte-americana, a qual vivia na era do jazz. Somente em 1952, o país produziu cerca de 400 músicas de Carnaval. 

E embora nos dias de hoje composições de marchinhas carnavalescas não estejam tão em voga, dar novos arranjos à composições antigas é fazer com o que o gênero resista ao tempo. Um exemplo é a música Sassaricando, marchinha de 1952 que em 1987 ganhou uma roupagem nova na voz da roqueira Rita Lee para a abertura da novela de mesmo nome.

Características

Temas como o amor, política, crítica social, profissões e homenagens são constantemente abordados dentro das marchinhas, com algumas peculiaridades: compasso binário, letras pequenas e simples, sentido ambíguo, facilidade no entendimento e memorização, humor, melodia simples, crítica social e política, ironia e escracho.

As inscrições podem ser feitas diretamente no 
Casarão das Artes ou de modo virtual 
(no link que segue na matéria)
Foto: Secop Suzano

Concurso

O Concurso de Marchinhas Carnavalescas – Edição Alto Tietê, que este ano homenageia o sambista Monarco, é promovido pela Secretaria de Cultura de Suzano, e encerra suas inscrições às 17 horas do próximo dia 31.

O objetivo do concurso é fomentar a produção do gênero musical, tornando possível ainda a revelação de talentos. Cada participante pode registrar uma composição no Prêmio Monarco. É necessário escolher entre uma música de liricidade poética ou uma letra voltada ao cotidiano. É possível também de inscrever duas marchinhas em cada categoria e concorrer ao Prêmio Pratas da Casa que, dentro da análise geral, irá eleger as melhores produções exclusivas da cidade. Haverá premiações em dinheiro para os três primeiros colocados. 

O prefeito em exercício e secretário de Cultura, Walmir Pinto, enfatiza que “serão aceitas apenas músicas e temas inéditos, ou seja, que não tenham sido veiculadas ao público em desfiles de Carnaval, outros concursos ou nas rádios. Ressaltamos também que não será permitida a inclusão de mensagens racistas, homofóbicas, misóginas, antidemocráticas e ofensivas”.

Inscrições pessoalmente ou on-line

Casarão das Artes 

Rua 27 de outubro, 271 – Centro - das 9h às 17h

Formulário: bit.ly/PremioMonarcoForms


Fonte: Nova Brasil FM

Texto: Elisa Marina

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Do gênero à idade, a livre escolha das pessoas VTQCS+. Qual é a sua sigla?

A Bela Adormecida (1921), pintura de John Collie
Na Roma Antiga, as mulheres tinham o costume
de banhar-se com leite de jumenta para deixar
a pele bonita e jovial, sinal de que beleza e idade
sempre foram temas caros às mulheres
O mais recente “desafio” do Instagram – como são chamados convites que amigos fazem entre si para postarem uma foto temática – é o de publicar na rede social uma self em preto e branco, porém sem maquiagens ou correções, sob a legenda: eu não sou ageless, sou uma pessoa com x anos de vida. 

A proposta foi apresentada pela atriz e diretora Mika Lins para quem esse conceito de ageless (sem idade) é uma maneira de amenizar o envelhecimento e continuar carregando esse fardo de não poder envelhecer. Eu não sou ageless, eu tenho idade, sou uma mulher de 57 anos, assim definiu em sua conta no Instagram


Idade é a contagem do tempo oficializada por um documento, ou como você se coloca para o mundo? A partir de então com a liberdade de se ter a idade que desejar, o que certamente dará - e deu - um diálogo bem interessante entre id e ego, observados à distância pelo superego, e às vezes metendo o bedelho onde não fora chamado.

- Quantos anos você tem?

- Hoje eu não sei.

- Perdão?

- Hoje eu não sei quantos anos tenho, mas amanhã posso ter trinta e cinco.

- Trinta e cinco?

- Sim.

- Mas, espera! Pelo que sei você nasceu na década de 70.

- Sim, e por que perguntou a minha idade? Falha de memória?

- Que matemática é essa?

- Oficialmente nasci em 1974, portanto de acordo com os registros tenho 48 anos de idade, porém esses quarenta e oito pertencem ao meu registro civil e não a mim.

- Só que você é a persona portadora desse registro, logo...

- Logo sou uma Pessoa T.

- Pessoa T?

- Sim, embora o registro civil me oficializa com 48 anos, eu me identifico com trinta e poucos.

- Como as pessoas trans, em que o gênero biológico não corresponde ao gênero com o qual ela ou ele se identifica?

- Meio que por aí.

- Mas é se reconhecer com pessoas que hoje estão com seus trinta e poucos anos?

- De forma alguma. É uma identificação com a Elisa com os seus trinta.

- E o amadurecimento? Me parece uma regressão, é isso? Porque veja bem, você já viveu por quase cinco décadas, voltar dez anos me parece colocar fim ao que fora vivido nos últimos anos. Envelhecer não é a somatória dos anos, logo estamos envelhecendo a partir do primeiro dia de vida, e portanto os anos passam a ser contados em idades.

- Não se trata de amadurecimento. Pra falar a verdade, idade deveria ser um conceito desassociado da condição de existir dos sujeitos. Olhe ao redor, há razão para saber que idade tem determinada pessoa? Ela é o que é a partir do que se vê, logo ela é um corpo, não um número.  Enquanto que a idade é o sujeito que não se vê. Só isso.

- Por essa lógica, eu sou registrado com um nome, mas posso querer me chamar por outro. É do corpo que se trata?

- Muito longe disso, afinal minhas células não mentem, e assim como o meu registro civil elas também têm os seus quarenta e oito anos de vida. Acho. E o nome você até pode mudar, a depender da motivo. Olha só, o nome não te define, assim como a cor da sua pele não deveria te definir também. Viu como idade, cor da pele, gênero são elementos segregam os sujeitos. 

- Acha?

- Hã?

- Você disse um "acho" há pouco.

- Ah, sim. Há um papo por aí que considera que a idade celular tem muito a ver com o estilo de vida, logo um idoso pode ser mais jovem que muitos jovens, e blá-blá-blá.

- Agora deu bug. Qual a razão de dizer que se tem trinta e poucos, se identificar com trinta e poucos quando realmente se tem 48?

- Nenhuma razão. Apenas a liberdade de se olhar no espelho e dizer: hoje tenho 35 anos e ponto final. Sou uma pessoa T, que vive num corpo Q. E amanhã serei uma pessoa Q num corpo C. Ou talvez, contrariando Mika Lins, uma pessoa sem idade, porém que jamais omitirá a sua data de nascimento.

Por Elisa Marina

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

A minha inexistente homofobia passou por essa porta

Entrada do prédio localizado na Rua Major
Sertório/Foto: Google Maps
Efervescência cultural nos anos de 1980, a região central da capital paulista agrupava bares e casas noturnas frequentados, em sua maioria, pela comunidade acadêmica, os intelectuais, escritores, jornalistas, e pessoas que pertenciam ao que se chamava à época movimento GLS, sigla para Gays, Lésbicas e Simpatizantes, enquanto que eu era apenas uma testemunha ocular no alto dos meus dez, onze anos de idade.

Costumo dizer que eu não tive tempo para ser homofóbica. Explico. Eu tinha um tio - irmão de consideração de meu pai – e vítima fatal da Aids – que morava na região da República e para onde eu, meus pais e meu irmão íamos aos sábados, a família heteronormativa que morava na pacata cidade de Poá. O apartamento dele, localizado na Rua Major Sertório, e próximo de todo aquele agito, mostrava para mim uma realidade bem oposta da provinciana cidade que não tinha uma vida cultural tão cheia de cores como a que eu via nos finais-de-semana na São Paulo com as suas diferentes tribos.

Evidentemente que o meu olhar para tudo isso, guardado ainda na memória da mulher de 48 anos de idade de hoje, não era elaborado com tanta propriedade assim. E claro que por razões óbvias eu não frequentava as boates que o hoje denominado público LGBTQIAP+ costumava ir, portanto, não tenho repertório para falar a respeito. Mas o que mais me encantava na região era haver ali uma atmosfera que não sei exatamente explicar qual, ambientada por pessoas das artes, da escrita, mundo este que mais tarde eu viria a pertencer. Tinham ali escritores e jornalistas renomados que eu sequer conhecia, mas eles estavam lá como viriam a confirmar mais tarde em entrevistas em que diziam ter frequentado, dentre tantos lugares, o Espaço Pirandello, um misto de restaurante e antiquário, e onde comi um macarrão adocicado, sem ter a mínima noção do que se tratava o prato de nome esquisito do cardápio. Devo ter pedido pelo nome diferenciado, um hábito que não mudou muito.

Foram tempos, diria, responsáveis para que eu me apaixonasse por São Paulo. Dizem que o amor real é um afeto sem razão de existir, uma explicação que eu concordo, porém abro exceção para exprimir o meu bem-querer à capital paulista.

Logo ali, no terraço do primeiro andar, com 
uma simplória cobertura, era de onde eu via
as travestis com seus vestidos justos e
brilhantes/Foto: Google Maps

E quando não íamos a restaurantes, o fervo ocorria numa quitinete decorada com esmero localizada no número 304 da já mencionada Major Sertório, a casa do querido Roberval Amâncio. Meus pais, meu irmão, e eu ouvíamos histórias de seus amigos, todos homossexuais e sempre em maior número além daqueles quatro interioranos poaenses.

São tempos que guardo com carinho na memória com um curto circuito de emoções: caem lágrimas festivas que por vezes saem de cena (e devem) para deixar entrar a tristeza pela dor de sua partida tão cedo quando ainda estava na casa dos cinquenta anos de idade.

Os anos de 1980 trouxeram o HIV, 2020, o Sars-Cov2, dois vírus devastadores - cada qual dentro da sua realidade, evidentemente –, mas que hoje apresentam tratamento, à Aids e à Covid-19, respectivamente, ambos muito mais avançado quando comparado aos anos de pico das duas pandemias. Sinal claro de que a Ciência avança com vias de buscar a cura desses vírus, só não encontrou até agora um tratamento eficaz para o vírus da homofobia, este tão mortal como os outros dois, o que sabemos não ser um problema das ciências, mas da sociedade como um todo.   

Texto: Elisa Marina

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O dia em que conversei com o rei

 

Em foto na Avenida Paulista, Pelé 
simula uma conversa com Felipão, 
então técnico da Seleção Brasileira
na Copa de 2014/ Sebastião Moreira
(EFE)

Nasci no ano de 1974, ano em que o Rei Pelé deu por encerrada a sua atuação com a camisa da seleção brasileira. E desde sempre cultuei uma admiração pelo astro que sequer vi jogar; o Pelé que conheci era o das reprises que traziam para os meus sete, dez, doze anos de idade jogadas espetaculares que não via sair dos pés dos jogadores que estavam por defender as cores verde e amarela da Canarinho nas copas que se seguiam.

No entanto, em paralelo ao futebol, naqueles tempos a televisão, os jornais e as muitas revistas de fofocas publicavam histórias sobre a vida particular do rei. Estavam ali o namoro com outra realeza, Xuxa, a rainha dos baixinhos, cujas matérias davam status de monarquia à relação. Teve também um suposto namoro com a primeira miss Brasil negra, Deise Nunes, e que viria pôr fim a especulações de que Edson Arantes do Nascimento, não mais Pelé, somente se relacionava com mulheres branca. 

E então o episódio mais midiático de todos, e que levou os brasileiros para o ringue das paixões. O reconhecimento da filha Sandra Regina que ocorreu após uma midiática disputa judicial. A partir de então, muitos que diziam admirar o rei passaram a desprezá-lo.

Confesso que isso não mudou em nada o que pensava sobre ele, talvez porque algo da jornalista que eu ainda não era já vivia em mim; e, portanto, ouvir o outro lado era uma lição que a faculdade de jornalismo me daria tempos depois. E foi como jornalista que tive a oportunidade de ter um breve contato com Pelé. Foi em 2012 quando trabalhei na Cinearte, produtora responsável pelo filme Pelé Eterno (2004), dirigido por Aníbal Massaini, amigo próximo do rei, e meu chefe à época. 

Próximo ao horário do almoço, o telefone toca. Na ausência da secretária de Massaini, coube a mim atender aquela ligação cuja voz que saía do outro lado da ligação era impossível não saber de quem se tratava. Foram segundos de um diálogo do qual eu nunca me esqueci, e que eu reproduzo a seguir:

- Cinearte bom dia.

- Ô minha querida, eu queria falar com o Aníbal.

- Pelé??? Tudo bem?? [Como eu resisti em não falar muito mais com você? Por que a tietagem não foi mais forte do que o que determina certa etiqueta profissional? E continuei: Só um instante, por favor.

Repassei aquela ligação com a sensação de dever cumprido, mas sabendo que o arrependimento perduraria por toda a minha vida, jamais saiu de mim, a fã. Para Pelé, fui apenas uma “querida” qualquer, a funcionária próxima ao telefone no horário em que ligou. Para mim ele era o Pelé, aquele Pelé, não qualquer Edson, mas o Edson Pelé, o Pelé Edson, quais sejam os seus nomes próprios. Era ali, foi e será por muito tempo o brasileiro mais embaixador do Brasil que até hoje existiu.

Não trabalho mais na Cinearte, e caso ousadia fosse o meu sobrenome em 2012, talvez a fã adormecida de outrora teria dado àquela Elisa Marina a demissão por justa-causa mais celebrada dentre todas. E pode ser que eu teria sido para aquele Pelé mais  uma Elisa, ainda assim com nome próprio, e não somente uma “querida”. Porém, quis o destino assim que eu guardasse aquele momento sem nenhuma prova material, não tenha gravação, e o Pelé não está mais aqui para confirmar. Tenho guardado comigo tão-somente a lembrança o registro que de tempos em tempos a minha fiel memória traz à tona.

Por: Elisa Marina