segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Conto de Segunda: Virgínia, a loba solitária

Ela vai despertar depois de ter tido o seu pior pesadelo, achando que aquele tinha sido o seu pior pesadelo, embora aquele fosse só o prenúncio do pior pesadelo que estaria por vir.

Ela vai sentar-se na cama. Vai virar de lado, e vai ajustar os dois pés no par de chinelos de dedo que ele havia lhe presenteado dois dias antes. Ela vai então lembrar-se disso ao vê-los marcados em seu corpo. E ela vai odiar-se por não ter jogado todos pela janela.

Ela vai levantar-se. E vai adorar sentir o piso frio do porcelanato que seu corpo aquecera na noite anterior. Ela vai lembrar-se da noite anterior, e na sequência vai se arrepender por não ter dito o não.
Ela vai lembrar do bar, da cadeira vazia que o aguardava, do trânsito, dos produtos para a maquiagem na penteadeira, do armário aberto, do banho demorado, e do sim ao telefone. Ela vai ser tomada de arrependimentos.
Ela vai então caminhar até o armário, tirar de lá o casaco preto de lã extremamente pesado. Ela vai ter dúvidas se o peso nos ombros é do corpo dolorido pela noite de chuvas, lágrimas e tempestades.
Ela vai sair do quarto, passar pela sala, atravessar a cozinha, descer as escadas do quintal, então ela vai abrir o portão.

Ela vai pisar na calçada esburacada, e de dentro dos buracos vai tirar pesadas pedras. Vai colocar três delas em cada um dos bolsos. Ela vai olhar para à esquerda e vai atravessar a avenida, ela vai subir no canteiro, ela vai olhar para a direita e vai atravessar a avenida. Vai pisar no calçadão, dar oito passos e afundar os pés na areia fofa e úmida e branca. Ela vai olhar para trás e ver as marcas dos pés e o desenho do seu passado. Vai ver seus medos. Vai ver seus amores. Vai rir chorando. Vai lembrar-se dos lenços úmidos na cômoda, da calça com a barra por fazer, da conta bancária no vermelho, dos abortos naturais e clandestinos, e do bebê que não acordou depois da mamada. E ela vai chorar. E vai rir da velha da casa ao lado, sabendo que a velha da casa ao lado era uma estúpida velha da casa ao lado. Ela vai parar. E vai entrar na água, e vai ver os pés sumirem. Ela vai continuar andando mesmo que o peso da água e dos anos dificultem o caminhar de seu peso em anos de idade.

Ela vai deixar boiar as folhas dos livros escritos e os que ainda estariam por serem escritos na capa vermelha mal-acabada. Ela vai sentir a água na barriga, nos seios, no pescoço, e no queixo. Ela não vai sentir medo, porque quer seguir adiante com o seu propósito. Ela vai ver a água bem debaixo de seus olhos tapar a boca dos discursos proferidos, dos beijos dados, dos beijos roubados e dos beijos evitados, saborosos beijos imaginados. Ela vai perceber a água chegar ao nariz que cheirou flores e nucas, e aos olhos que lhe mostraram cenários reais, imaginários e hipotéticos, todos eles em suas histórias.

Ela vai ver as ondas. Ela vai mergulhar. E ela vai afundar. Ela vai sentir o corpo tocar o chão do mar. Ela não vai ver mais nada porque seus olhos estarão fechados. Ela vai sentir a respiração cansarem os pulmões. Ela vai querer gritar. Ela vai começar a perder os sentidos. Ela vai dar início à morte de seus personagens. E vai matar suas histórias junto com seus desfechos. Ela vai matar a todos eles. E com eles ela vai morrer como personagem de outros escritos, porque ela vai viver por ter desejado morrer como Virgínia Wolf.

Texto: Elisa Marina

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Noite de estreia do Curta Suzano expõe dificuldades dos atores negros no audiovisual. Exibição dos filmes da mostra segue até sexta-feira

Ao lado do escritor Escobar Franelas,
(à esq.) um dos coordenadores do Curta
Suzano, o ator Adolfo Moura, 
convidado especial no primeiro dia 
da mostra/Foto: Elisa Marina

Racismo, discriminação nos testes de elenco, ausência de um protagonismo negro no audiovisual. Todos esses temas sustentaram a fala do ator gaúcho Adolfo Moura durante sua participação como convidado especial na abertura do 6º Curta Suzano – Mostra de Curtas-metragens do Alto Tietê, na noite da última terça-feira. No entanto, quando questionado do seu posicionamento sobre a escolha de atores negros para personagens de menos destaque no cinema ou na televisão como se a eles coubessem apenas papéis secundários, o ator apresentou um olhar peculiar acerca dessa polêmica. "O problema é quando não se constrói uma historia com seus respectivos conflitos para estes personagens. O empregado tem uma família, tem seus dramas particulares, e por que deixá-lo com um ‘enfeite’, que está ali apenas para servir à família”, enfatizou Adolfo Moura.

O Curta Suzano, em sua 6ª edição, tem se tornado uma referência do audiovisual quando se propõe a dar protagonismo à região do Alto Tietê. “Precisamos produzir para contar a nossa própria história”, com essas palavras, o secretário de Cultura de Suzano, o vice-prefeito Walmir Pinto, sintetizou sua visão da importância que o Curta Suzano representa para as doze cidades que compõem a região. 

Do cinturão verde de Mogi das Cruzes, passando pela Fonte Áurea de Poá, e chegando à Igreja do Baruel em Suzano, o Alto Tietê representa uma população de aproximadamente 2.900.000 habitantes. E que quando volta seu olhar para si, é capaz de produzir todos os anos centenas de filmes competitivos, o que pode ser conferido nos 41 filmes selecionados para a mostra, incluindo aí também curtas-metragens de outros estados e que concorrem na categoria Panorama Brasil. 

As exibições desses curtas começaram ontem, e se estenderão até a próxima sexta-feira. No sábado, data da premiação, estão programados a realização de uma oficina de produção audiovisual, e um bate-papo com o ator Alexandre Rodrigues, o Buscapé do filme Cidade de Deus, e a cineasta Viviane Ferreira, que dirigiu o Comitê Brasileiro de Escolha do Oscar em 2021.

Acompanhe a programação completa em: www.curtasuzano.com.br

Estatuetas criadas por Koral
Alvarenga foram produzidas
com madeira e papelão/Foto:
Divulgação
Madeira e papelão compõem as estatuetas da premiação

Partindo da imagem de um corpo humano sem gênero definido, a artista da tecnologia Koral Alvarenga se apropriou de seu estilo, que se conecta entre o digital e o físico, para criar as estatuetas da premiação do Curta Suzano.

“Desenvolvi a modelagem 3D e depois usei uma técnica de fatiamento na qual eu poderia usar uma máquina de corte a laser para cortar materiais de forma igual e seriada. E depois fui para uma pesquisa de materiais que podiam ser utilizados nessa máquina e descobri o papelão. Após alguns testes, percebi que precisaria também usar a madeira para dar à obra resistência e durabilidade”, explica Koral, que adequou a produção das estatuetas à proposta dos organizadores da mostra no que tange à confecção das esculturas da premiação, que é a utilização de materiais recicláveis.

 “Eu entrei em conta com empresas de madeira, e com esse material eu criei a estrutura do trabalho, mesclando a madeira reaproveitada e o papelão de caixas de supermercado. Depois, toda a parte de montagem é feita manualmente assim como a pintura. O nome desse trabalho é Identidades Neo Urbanas 5.0”, finaliza Koral.

Texto: Elisa Marina


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

6ª edição do Curta Suzano acontece na próxima semana com a presença do ator Adolfo Moura

No papel de Cartola, o ator Adolfo Moura dividiu o palco
com Gero Camilo, Nilcéia Vicente e Victor Mendes na 
peça Razão Social(2017)/Foto: Divulgação

De 13 a 17 de setembro acontece a 6ª edição do Curta Suzano – Mostra de Curtas-metragens do Alto Tietê, só que dessa vez de modo presencial, diferente do ocorrido nas duas últimas edições apresentadas de modo virtual em razão da pandemia de Covid-19. “Para nós, a sexta edição é como se fosse a primeira, e isso nos provoca uma enorme ansiedade”, é como define Escobar Franelas um dos coordenadores da mostra.

Na primeira noite, dia 13, o ator Adolfo Moura é o artista convidado para bater um papo com o público presente, um ator negro cuja presença vai ao encontro da razão de ser do próprio Curta Suzano, que é dar visibilidade ao trabalho de pessoas pretas, indígenas, às mulheres, como também pessoas LGBTQIAP+. “Nosso diferencial é apresentar outra faceta do cinema, onde essas pessoas têm vez para dar voz às suas produções”. Não por acaso, é uma mulher quem assina a criação das estatuetas da premiação, no caso, a artista multimídia Koral Alvarenga. “Buscamos por artistas que imprimam nessas obras uma mensagem que esteja dentro da nossa procura pela inclusão. Os troféus, criados com exclusividade para o Curta Suzano, obedecem às nossas premissas: serem confeccionados com material sustentável, e que estas obras tragam algum tipo de referência sobre o Alto Tietê, seja através de uma marca simbólica, mitológica ou estética”. Escobar conta que Koral foi além, “ela nos apresentou uma proposta totalmente multimídia, com uma produção feita toda de forma digital e impressa em 3D, o que adequou-se ao nosso orçamento, sem desvalorizar o trabalho dela”.

Se para os organizadores do Curta Suzano realizar essa edição tem causado certo frisson, é possível supor o quanto que diretores, atores, roteiristas, atrizes, produtores, estejam muito mais ansiosos para mostrar ao público as suas produções.

Texto: Elisa Marina

                                                                      

6º Curta Suzano – Mostra de Curtas-metragens do Alto Tietê

De 13 a 17 de setembro de 2022 

Evento gratuito

Programação

13/9 – Abertura – 19h

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

Convidado especial: ator Adolfo Moura

Música: Dom Vinera (participação de Paulo Miranda)

 

14/9 – 10h

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

SESSÃO SANTA ISABEL - Classificação Livre

 Lençóis - Fernando Marques (Recife-PE) 7´ - L

Através dos sentidos - Gilson Nascimento (Rio Janeiro-RJ) 15´ - L

Yabá - Rodrigo Sena (Natal-RN) 12´ -  L

Meu nome é Maalum - Luísa Copetti (Rio Janeiro-RJ) 8´ - L

TOTAL: 45´          

                                                          

Cineteatro Wilma Bentivegna – 14h

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

SESSÃO MOGI DAS CRUZES - Classificação Livre

 Muros da vida - Zoran Djordjevic (São José Campos-SP) 15´ - L

Penélope - Luciana Jacob (Piracicaba-SP) 15´ - L

Duas - Ana Cavazzana (Curitiba-PR) 20´ - L

TOTAL: 52´      

 

Cineteatro Wilma Bentivegna – 17h

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

SESSÃO ARUJÁ - Classificação Livre

 A rua - Marcos Farias (Suzano-SP) 8´- L

Durante o banho - Gabriel Ferreira (Guarulhos-SP) 10´- L

Escrevendo o mundo - Daniel Neves (Guarulhos-SP) 25´- L

Outdoor - Rafael dos Anjos (Guarulhos-SP) 5´- L

Silenci(AR) - Felipe Lima (Suzano-SP) 7´- L

TOTAL: 58´    

 

Cineteatro Wilma Bentivegna – 19h30

R. Paraná, 70, centro de Suzano)

 

SESSÃO SANTA BRANCA - Classificação indicativa 12 anos

 Cinderela do Bom Fim - Diego Muller (Lajeado-RS) 19´- 10 anos

Ensino fundamental - Lucas Scupino (São Paulo-SP) 13´- 10 anos

Guiné - Danilo Cica e Sheila dos Anjos (São Paulo-SP) 13´ -  10 anos

O braço dela - Eduardo Chaves (Niterói-RJ) 14´ - 10 anos

Total: 60´            

 

15/9

Centro Cultural. Francisco Carlos Moriconi – 10h

R. Benjamin Constant, 682, centro de Suzano

 

SESSÃO SALESÓPOLIS - Classificação Livre

 Depois quando - Johnny Massaro (R. Janeiro-RJ) 14´ - L

Maia - Renato Prado (Curitiba-PR) 16´ - L

Ana Rúbia - Diego Baraldi e Íris Alves Lacerda (Rondonópolis-MS) 18´- L

TOTAL: 50´                                                  

 

Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi

R. Benjamin Constant, 682, centro de Suzano - 14h

 

SESSÃO ITAQUAQUECETUBA - Classificação Livre

Lina - Melise Fremiot (Nova Iguaçu-RJ) 25´ - L

Madá - San Marcelo (Bragança-PA) 22´ - L

TOTAL: 50´

 

Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi

R. Benjamin Constant, 682, centro de Suzano - 17h

 

SESSÃO FERRAZ DE VASCONCELOS - Classificação Livre

 Reflexo - Samuca Bovo (S. Paulo-SP) 20´ - L

Juízo, menino… - Diego dos Anjos (Rio de Janeiro-RJ) 25´ - L

TOTAL: 48´

 

Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi

R. Benjamin Constant, 682, centro de Suzano - 19:30h

 

SESSÃO GUARAREMA - Classificação 14 anos

 E daí? - Douglas Cordeiro (Suzano-SP) 7´- L

Inhuman - Kadu Sasso (Suzano-SP) 3´- L

O desconhecido - Allan Gonçalves (Mogi das Cruzes-SP) 7´- L

O navio do universo - Renato Queiroz e Daniel Neves (Guarulhos-SP) 22´- L

Vazão - Michelle Brito e Guillermo Alves (Ferraz de Vasconcelos-SP) 18´ - 14 anos

TOTAL: 60´

 

16/9

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano - 10h

 

SESSÃO POÁ - Classificação Livre

A grande luta - Júlio Sales (Belo Horizonte-MG) 25´- L

Veneno - Kauan Oliveira (Vitória da Conquista-BA) 22´ - L

TOTAL: 50´

                      

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano - 14h

 

SESSÃO GUARULHOS - Classificação Livre

 Quando eu soltar a minha voz - Guilherme Telles (Rio de Janeiro-RJ) 15´ - L

Entre muros - Gleison Mota (Feira de Santana-BA) 15´- L

Da janela vejo o mundo - Ana Catarina Lugarini (Curitiba-PR) 15´- L

TOTAL: 48´                                         

 

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano - 17h

 

SESSÃO BIRITIBA MIRIM - Classificação Livre

 Aviãozinho - Suéllen Santos (Suzano-SP) 10´- L

Perdidos em Casa - Nicolás Ignacio (Suzano-SP) 15´- L

Ponto e Vírgula - Carol Dantas (Guarulhos-SP) 10´- L

Reticências - Gael Teles (Guarulhos-SP) 14´- L

Um artista da fome - Moisés Pantolfi (Guarulhos-SP) 5´- L

TOTAL: 56´                                        

 

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano - 19:30h

 

SESSÃO SUZANO - Classificação indicativa - 16 anos

 Alexandra - Luiz Alberto Cassol (Porto Alegre-RS) 16´- 12 anos

Entreolhares - Ivan Willig (Pedra Azul-ES) 20´ - 16 anos

Eu te amo é no sol - Yasmim Guimarães (Belo Horizonte-MG) 19´ - 16 anos

Total: 57´        

 

17/9

10h - Oficina: Produção Executiva para Audiovisual

Com Lico Cardoso, roteirista, montador e produtor audiovisual

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

                                                          

15h - Oficina: Editais e Captação de Recursos para Audiovisual

Com Binho Perinotto, poeta, pedagogo (UNESP), consultor e gestor cultural

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

17h - Bate papo com Alexandre Rodrigues, ator

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano - 18h

                                   

18h - Aula Magna com Viviane Ferreira, atriz, diretora e roteirista, presidente da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro) e do Conselho Brasileiro de Seleção do Oscar 2021

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

19h - Entrega dos prêmios

Cineteatro Wilma Bentivegna

R. Paraná, 70, centro de Suzano

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Elisa, a Lispector que grande parte do Brasil desconhece

 

Início na literatura ocorre aos 34
anos de idade. Parte do acervo da 
escritora pertence ao Instituto
Moreira Salles/Foto: Blog do IMS

 A escritora, contista e jornalista Elisa Lispector nasceu Leah Pinkhasnova Lispector em 24 de julho de 1911, na cidade de Savran, a sudoeste da Ucrânia. Em razão da Revolução Russa de 1917, a família Lispector passou a sofrer com a perseguição aos judeus, por isso, em 1920, todos eles embarcaram em um navio com destino ao Brasil, em Maceió chegaram em 1922. Com exceção da irmã do meio, Tania, todos os demais mudaram de nome. Leah virou Elisa Lispector. O pai passou a se chamar Pedro; a mãe Mania, Marieta; e Haia, a caçula, Clarice. Três anos depois, a família mudou-se para o Recife, e por lá Elisa Lispector cursou a Escola Normal e o Conservatório de Música. Tempos depois, em 1935, a família deixa o nordeste e se muda para o Rio de Janeiro.

Fez carreira no serviço público federal, chegando a representar o Brasil em uma reunião realizada no Peru para estudar os problemas da mão de obra feminina na América Latina. Depois de aposentada, passou a dedicar-se às colaborações em periódicos, como o Diário de Notícias.


Estreou na literatura em 1945, aos 34 anos de idade, com o romance Além da Fronteira. Elisa fazia uso de um monólogo interior com discursos irônicos em terceira pessoa. Com O Muro das Pedras (1963), obteve os prêmios José Lins do Rego, em 1963, e Coelho Neto, em 1964, concedido pela Academia Brasileira de Letras. Percorreu os caminhos da literatura, como Clarice, mas diferente da irmã, seus livros não se encontram nas livrarias do Brasil, e seu nome não ecoa por aí em postagens nas redes sociais com frases de efeito, como ocorre com Clarice Lispector, embora boa parte delas não seja de sua autoria, mas fazem Clarice tornar-se cada vez mais popular, mesmo entre os que jamais leram seus livros.

Da esq. para a dir., as irmãs
Tania, Elisa e Clarice Lispector
em fotografia tirada em 1920.
Foto: Folha de S. Paulo

No entanto, não cabe aqui qualquer tipo de comparação literária entre as irmãs; apesar de ser quase que inevitáveis abordagens dessa natureza. Mas sim dar protagonismo, pro ora, a Lispector autora de sete romances e três contos publicados e um inacabado.

 

De Elisa Marina para Elisa Lispector, um encontro em 1978

Assim como a maioria dos brasileiros, eu, Elisa Marina também escritora, contista e jornalista, desconhecia a literatura dessa outra Elisa, a Lispector. Foi depois de assistir a uma peça de teatro baseada nas cartas trocadas entre as irmãs Lispector, em razão das constantes viagens de Clarice com o marido diplomata, Maury, e certamente também atraída pela coincidência dos nomes, procurei por mais informações acerca da minha xará nascida sessenta e três anos antes de mim, e que nos deixou quando eu não tinha nem quinze anos de idade, sem livros publicados mas com uma inquietação de escritora ainda não chancelada.

A dificuldade em encontrar seus livros me frustrava de sobremaneira, mas eu não desistia, e foi graças aos sebos da vida que eu consegui adquirir dois dos onze por ela escritos. Um desses, inclusive, traz uma preciosidade de valor afetivo imensurável.

O ano era 1978, eu tinha quatro anos de idade, ainda não alfabetizada, e na capital fluminense o escritor mineiro Oscar Mendes, imortal da Academia Mineira de Letras, recebia das mãos de Elisa Lispector uma dedicatória em uma das páginas de seu O Dia Mais Longo de Thereza (1965), livro este que agora repousa verticalmente na minha estante rústica de livros. Penso aqui na longa viagem que esse exemplar deve ter percorrido, e por quantas mãos deve ter sido tocado até ter como destino um caixote amarelo que dá corpo a minha biblioteca, e que aguarda pela minha próxima imersão literária, que de algum modo fará o meu texto conversar com a literatura de Elisa Lispector, sendo o tempo o protagonista da história.

Texto: Elisa Marina



segunda-feira, 15 de agosto de 2022

A história quando contada através de seus patrimônios

 

Localizada às margens da rodovia Índio Tibiriçá, a
Capela de Nossa Senhora da Piedade passará por 
estudo de tombamento/Foto: Oi Diário
O homem já chegou à Lua, e hoje procura meios para pisar em solo marciano. Tanto o satélite quanto o planeta são lugares não explorados, e ainda vazios de história, tal como a Terra um dia assim o foi. Difícil para nós, humanos modernos, idealizar um território sem qualquer referência, porque nascemos num mundo já constituído de patrimônios – materiais e também imateriais. Logo, aquele museu, determinado folclore, o prédio da biblioteca, a igrejinha barroca, já estavam por aí antes mesmo de você. E é com a preservação de seus bens, histórico-culturais, como prédios, residências, danças, lendas, costumes, tradições, festejos, folclores, que uma comunidade se sustenta, uma cidade se estrutura, e a história se perpetua.

O Decreto Lei nº 25 de 1937 determina que, constitui patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil. Estados e municípios têm suas regulamentações próprias de como preservar sua história. Suzano, município da região metropolitana de São Paulo, é um exemplo. O Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compac) planeja, para ainda este ano, um estudo do tombamento da Capela de Santa Helena, da Capela de Nossa Senhora da Piedade, conhecida como Igreja do Baruel e da Festa do Baruel.

Muito mais que um dever do poder público, preservar um patrimônio é dever também de todo cidadão, para isso, de acordo com o presidente do Compac, Amaury Rodrigues, “o Conselho irá promover uma atividade educacional para a preservação do patrimônio com o objetivo de conscientizar a população sobre os benefícios e a importância da preservação do patrimônio material e imaterial. Além disso, irá promover em setembro o curso Introdução às técnicas retrospectivas do patrimônio histórico, voltado para o público acadêmico, e interessados em geral”.

“Qualquer cidadão pode ajudar a preservar a história da sua comunidade, para tanto basta indicar ao Compac um bem material ou imaterial que acredita ser significativo, e que necessite de proteção especial. O cidadão suzanense pode ser um guardião do bem público, respeitando e preservando as obras tombadas. Isso é garantir a história viva para as futuras gerações”, salienta Rodrigues.

Construída em torno de 1700, Igreja do
Baruel sofreu danos e foi reconstruída em
1916/ Foto: Acervo Secretaria de Cultura
de Suzano


Igreja do Baruel        

 No século XIX, uma tempestade fez desabar grande parte da capela de Nossa Senhora da Piedade, reconstituída tempos depois, no ano de 1916, pelo imigrante italiano Roberto Bianchi. Para comemorar a reinauguração da Igreja, teve início a tradicional Festa do Baruel, que, se inicia com a reza do terço de São Benedito, trinta dias antes da grande comemoração no mês de setembro, que é o Dia de Nossa Senhora da Piedade. A caminhada dos fiéis, do centro da cidade até o bairro, também é uma tradição centenária.

A comunidade na qual a igreja está localizada, às margens da rodovia Índio Tibiriçá, representa o marco do início do que mais tarde viria a ser a cidade de Suzano.

Por Elisa Marina

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Poética ou pecadora, mas sempre presente a preguiça


Preguiça (2017), Óleo em Tela, Veloso - Portugal
Série de obras do artista português Veloso tendo como
temática os sete pecados
Que preguiça de escrever esse texto, mas é preciso, e por quê? Para homenagear a sempre presente preguiça e com a qual convivemos desde a tenra idade. A depender do ponto-de-vista, ela pode ser amiga ou inimiga. E é tolerante, pois incorpora em todos os corpos,  independentemente de raça, credo, ou preferência política. Nas mulheres, nos homens, nas pessoas LGBTQIP+. Brasileiros ou estrangeiros, altos ou baixos, brancos, pretos ou amarelos, afinal, quem é que nunca sentiu aquela preguicinha no meio do dia? Pois bem, hoje é o Dia Internacional da Preguiça. Até ela tem uma data só sua, seja para comemorar, reverenciar ou criticar. 


Entende-se por preguiça a falta de disposição para realizar determinada tarefa, ou até mesmo uma aversão ao trabalho. No entanto, não há definições psiquiátricas que classifiquem a preguiça como patologia, mesmo porque momentos de ócio são muito indicados para a manutenção da saúde mental. Porém, a preguiça pode ser sintoma de algumas patologias, tais como a narcolepsia, e a depressão, por exemplo.

Mas a preguiça pode servir de inspiração para poetas, como quando Manoel de Barros diz: tenho preguiça de ser sério. Já Mario Quintana foi mais incisivo. A preguiça é a mãe do progresso/ Se o homem não tivesse preguiça de caminhar/ Não teria inventado a roda. Na contramão dos poetas, o físico Albert Einstein dizia que a leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar. Uma definição que se aproxima do vazio existencial e inquietante de Charles Bukowski. Tudo o que era mau atraía-me: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhuma opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil. Fernando Pessoa via na preguiça, liberdade, uma fuga às obrigações e às maçadas que implicam. Ai que prazer/ Não cumprir um dever/Ter um livro para ler/ E não o fazer!/ Ler é maçada,/ Estudar é nada./ O sol doira/ Sem literatura.

Por outro lado, o catolicismo com seu fundamentalismo nada poético, e muito menos científico, apresenta a preguiça como um de seus sete pecados capitais, caracterizado pela pessoa que vive um estado de falta de capricho, de esmero, de empenho. Nas escrituras cristãs, esse pecado é visto como um vício primário, mais perigoso e debilitador do que o orgulho ou a inveja, um tipo de exaustão do espírito.

A preguiça é sua, ela lhe pertence, lhe toma com efeitos paralisantes, angustiantes ou estimulantes. Seja como for, se você chegou até aqui, é provável que a leitura desse texto não lhe tenha causado preguiça, o que para uma jornalista é a satisfação máxima de seu trabalho, que é fazer a mensagem chegar - por completo - a seu destino, ainda mais quando em tempos de redes sociais, por preguiça, o leitor reduz a leitura de uma notícia apenas ao seu título, e que como consequência, o nível de compreensão dos fatos não ultrapassa a superficialidade. Que preguiça desses tempos!

Elisa Marina