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| Mosca macho emite vibrações como forma de cortejar a fêmea |
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| Moscas acasalando encontradas em âmbar de 41 milhões de anos. Imagem: Jeffrey Stilwell |
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| Mosca macho emite vibrações como forma de cortejar a fêmea |
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| Moscas acasalando encontradas em âmbar de 41 milhões de anos. Imagem: Jeffrey Stilwell |
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| Julia Roberts e Woody Allen, em cena de Todos Dizem Eu Te Amo/Reprodução |
Sem dúvida houve a influência do cinema americano. Noel Rosa já reclamava disso nos anos 30: “Amor lá no morro é amor pra chuchu/ A gíria do samba não tem I love you.”
Na minha infância, nos anos 50, nunca ouvi meu pai dizendo eu te amo à minha mãe, nem minha mãe dizendo eu te amo a meu pai, nem a nós, seus filhos. Talvez naquele tempo o amor fosse mais recatado. Embora grande, o amor era sagrado, secreto, subjacente, não precisava que a gente se declarasse o tempo todo.
Me lembro, por exemplo, da música A Noite do meu bem, de Dolores Duran. Eu ainda não sabia o que era o amor, mas essa canção me deixava comovido como o diabo, como dizia o Drummond. Aliás, “meu bem” rolava muito lá em casa.
O principal responsável pela introdução do eu te amo no Brasil talvez tenha sido o poeta Vinicius de Moraes. Ele escreveu o “Soneto do amor total”, que começa assim:
“Amo-te tanto, meu amor, não cante
O humano coração com mais verdade;
Amo-te como amigo e como amante,
Numa sempre diversa realidade. (...)”
Eu sei que “amo-te” não é igual a “eu te amo”. A maneira de falar, a sintaxe ainda é meio lusitana. Mas na canção “Por toda a minha vida”, com música de Tom Jobim, Vinicius escreveu: “Eu te amo e te proclamo/ o meu amor, o meu amor.”
Agora, para aclarar as minhas trevas, saiu pela Companhia das Letras uma coletânea de textos de Vinicius, “Todo amor”, organizada por Eucanaã Ferraz. Uma reunião de algumas das mais belas palavras de amor no Brasil do século XX. Porque foi Vinicius quem mais praticou e falou sobre a arte de amar por aqui.
Às folhas tantas deste livro me deparo com uma carta do poeta para Beatriz de Moraes, com quem ele havia acabado de se casar pelo correio, por procuração. A carta é de 1938, quando o poeta estava em Oxford, usufruindo de uma bolsa de estudos. E depois de declarar a sua amada que “tu és minha vida, meu tudo (...) Eu sou teu escravo, teu criado, tua cria e tu és a minha namorada ilícita e esposa amantíssima (...)”, Vinicius arremata: “E te amo tanto que às vezes fico com vontade de dar urros de amor.”
É o primeiro te amo por escrito que eu conheço.
Dirá você que, no século XXI, as palavras de amor perderam muito prestígio. Serei forçado a concordar. Hoje todo o mundo diz que ama todo o mundo. Mas as pessoas, felizmente, continuam se amando. E basta que se leia a poesia de Vinicius para que as palavras ganhem de novo seu frescor original. A poesia sempre renasce. Haverá sempre um novo Romeu da Ilha do Governador que dirá, como se fosse a primeira vez, ao pé da janela de sua Julieta pós-moderna: eu te amo.”
Portanto, “eu te amo” revela mais um desejo de dizer do que de ouvir? Diria que é uma via de mão dupla sedimentada até que rompam-se os laços, e o tal amor antes dito é silenciado; mais tarde, aquele “eu” de outrora dirá o seu amor a outro ouvinte.
Por Elisa Marina
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| Legislação determina cadeirinhas e assentos específicos de acordo com o tamanho e idade da criança/ Imagem: Doutor Multas |
Eram os anos de 1980. Época em que os adultos fumavam na nossa frente, nas nossas costas e nos cômodos fechados onde brincávamos. Podia ser no playground coberto de um restaurante, no salão de festas do aniversário do coleguinha, e todo e qualquer lugar em que estivessem. E sem querer, nós éramos mirins fumantes passivos que até podíamos comprar um maço de cigarros no bar da esquina mas nunca tragar uma bituca. Aos 95 anos de idade, ela continua a afirmar que começara a fumar ainda criança, e pelas mãos do avô. E o pai do Luiz Felipe que achou graça quando o flagrou com um cigarro na mão? Até hoje, com seus 52 anos, ele jura de pé junto jamais ter colocado aquele cigarro na boca.
Lemos em nossas salas de estar Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Lemos seu infortúnio despejado em papel nas páginas de seu Quarto de Despejo (Ed. Ática). Despojados em nossos sofás, fixamos os olhos nos dias morosos que se seguem dos idos 1950. É tão 2023 que a ficção que desejaríamos ver escrita, é na verdade a realidade que não gostamos de ser contada nos parcos cruzeiros que equivalem a uma sopa de ossos, ou um pão duro recheado com desilusão.
Na cozinha dos nossos desejos, o estrogonofe na panela não nos faz sorrir, mas o mesmo prato faria Carolina gargalhar, e seus filhos se acharem ricos com o banquete na mesa. Domingo tem macarronada? Tem, sim senhor, e quarta-feira, feijoada, as nossas graças sem risadas.
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| Shopping de Santo André adotou a ideia em suas dependências/ Foto: Reprodução |
Enquanto não há uma lei federal, legislativos municipais se articulam. No ano passado, em Minas Gerais, a Câmara Municipal de Juiz de Fora, aprovou, em 3 ª discussão, o projeto de lei (PL) que tem por objetivo vedar a instalação e adequação de banheiros e vestiários, em estabelecimentos públicos e privados, para uso por pessoas de sexos diferentes em locais de acesso do público em geral, como shoppings, bares, restaurantes, supermercados, agências bancárias, escolas, institutos, dentre outros. Em sua redação, o PL deixa claro que a norma não se aplica aos locais em que exista apenas um único banheiro ou vestiário, desde que garantam condições de privacidade individual a quem dele se utilizar.
Políticos conservadores se esquivam de uma discussão mais racional para preservarem um discurso que dialoga com suas bases eleitorais, embasados por uma orientação religiosa que se distancia cada vez mais das demandas da sociedade.
Para além de uma deturpação do que se define como “ideologia de gênero”, uma fértil imaginação supõe que aquilo que foge a um padrão heteronormativo seria livremente associado a condutas exclusivamente sexuais, ou seja, banheiros unissex seriam ambientes propícios para a libertinagem sexual, ou então para o assédio e o estupro. Nesse sentido, seria oportuno lembrar dos casos nos transportes públicos. Logo, a racionalidade e a razoabilidade saem de cena para fazer valer a histeria delirante. Portanto, saindo do moralismo calcado na religião e se encontrando com a realidade, em qual das duas únicas opções (feminino e masculino) seria permitido a um homem entrar caso sua esposa acometida pelo Alzheimer necessitasse usar o banheiro?
Em 2020, o Grand Plaza Shopping, na região central de Santo André, inaugurou o banheiro unissex com mais de 40 cabines. Enquanto isso, na Bahia a instalação de uma simples placa já foi o suficiente para causar uma histeria coletiva, quando no ano passado o Parque Shopping Bahia, localizado em Lauro Freitas na região metropolitana de Salvador, fora alvo de ataques na internet após instalar placas contra a transfobia em banheiros do centro comercial. As placas contavam com a seguinte mensagem: “Todos são bem-vindos. No Parque Shopping Bahia você é livre para usar o banheiro correspondente ao gênero com que se identificar. Transfobia não!”. Elas foram retiradas depois da polêmica levantada na internet.
Apesar de toda a discussão, o uso do banheiro conforme a identidade de gênero é um direito garantido pela Justiça para pessoas trans e travestis há pelo menos sete anos. A resolução federal de nº 12, de janeiro de 2015, estabelece que deve ser garantido o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada pessoa, tanto em espaços culturais, quanto de educação.
Restringir uma discussão com tamanha profundidade ao campo do moral-religioso-ideológico é ter uma visão míope diante de uma sociedade tão complexa.
Fonte: Agência Câmara de Notícias
Por Elisa Marina
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| Amarelo-Verde-Azul (1925) - W. Kandinsky Óleo sobre tela - Museu de Arte Moderna de Paris. Uma abstração em arte da semiótica da comunicação? |
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Life Smartphone, animação curta- metragem criada pelo cineasta chinês Chenglin Xie, e que mostra por que o vício em smartphones pode matar você.
Zap
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Dá um salve.
Tem que engajar. Se inscreva no canal. Link na bio. Compartilha. Qual o seu Insta? Emoji. Gif. Link. Avatar. Foto de perfil. Foto de capa. Story. Stories. Status. Reels. Turbinar a publicação.
Se as expressões acima lhe fizeram algum sentido é porque você não está tão desconectado ou desconectada do mundo. No entanto, para os que passaram dos trinta e muitos anos de idade, é provável que já tenha percebido que vai ficar cada vez mais raro ouvir um “me passa o seu telefone fixo”.
A inteligência que conecta os humanos uns aos outros é um artifício de singularidades indecifráveis aos sujeitos passivos a ela. Como aquela canção de Paulinho da Viola, não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Somos navegados por algoritmos, e nessa condução cremos num poder de decisão acima dessa lógica que já está posta. Logo, faço porque todo mundo faz, e aqui com ou sem inversão da oração subordinada adverbial, mesmo porque o sentido vai ser sempre o mesmo, e no final das contas está todo mundo buscando o mesmo, o engajamento, que nada mais é que alcançar o maior número de seguidores possíveis para que seu produto, sua marca, ou mesmo você se torne um negócio lucrativo. A mamãe que filma e publica as primeiras palavras da criança gerando assim milhares de seguidores desperta o interesse do banco privado e de tantas outras mães que veem graça nas peripécias de seus rebentos. E quem aqui liga para os efeitos futuros dessa excessiva exposição a que crianças estão submetidas ante um futuro dominado pela inteligência que recria rostos e perfis para então publicá-los em sites de interesses escusos?
Curta, comenta, compartilha, afinal a imposição é a serventia da casa, e a obediência, uma obrigação do seguidor, afinal se todos fazem, por que não fazer?
Sobre a obra abstrata de Wassely Kandinsky
Considerada sua obra prima, Kandinsky mescla as cores primárias de amarelo, vermelho e azul em complexas nuvens de cor, que se sobrepõem e se cruzam sem um padrão, e não formam objetos claramente identificáveis. Em muitos aspectos, essa liberdade de movimento foi uma síntese dos muitos novos movimentos artísticos em erupção na década de 1920.
As formas se tornam imagens celestiais, desaparecendo e reaparecendo à medida que elas fluem pela tela, mudando de cor e lutando entre si pelo domínio. Pode-se claramente experimentar a crença de Kandinsky de que formas e cores tinham a capacidade única de explicar o invisível e o imperceptível. Como o próprio artista escreveu certa vez: “A criação de uma pintura é a criação de um mundo.”
Por Elisa Marina
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| Zé Celso durante a Mostra de Teatro de Suzano, que ocorreu ano passado/ Foto: Elisa Marina |
Já disse o quanto admiro esse artista que ultrapassa todas as fronteiras da liberdade do corpo e da mente para fazer jus ao teatro que idealizou com o seu Oficina, fundado em 1958.
De um lado, seu sonho verde de um parque no Bixiga, do outro, mais um empreendimento cinza a fazer a fortuna de SS aumentar mais e mais e mais. Figuras expoentes, cada qual em seu ofício, e que deixam em evidência o abismo colossal que há entre visões de mundo opostas. Dinheiro e arte não falam a mesma língua, o Deus dinheiro é incapaz de ouvir o Deus arte que, por sua vez, reivindica tão pouco ao Deus dinheiro para existir, que dirá resistir.
As horas, os meses, os anos que se levam para produzir um texto, daí a produzir um espetáculo, para finalmente fazê-lo brilhar no palco de um teatro, não se traduzem em ganhos financeiros, pelo contrário, ficam tão abaixo disso que num instante final aceita-se qualquer merreca, porque o prazer de dar corpo ao idealizado em mente, e de modo tão solitário, supera a insignificância que donos dos baús da vida subjugam o artista.
Triste sociedade que valora o concreto e da às costas para a poesia, que enxerga a geração de empregos pelo viés do mercado da produção de bens tangíveis que não o da literatura que provoca o desconforto, que endeusa os CEOs e diminuiu os SEUs Oh dramaturgos, que inutiliza IPhones tão facilmente e nem utiliza sabiamente as salas de teatro, que paga altos preços pelas cadeiras das arenas de futebol, e nem sequer se aproxima das arenas dos picadeiros onde se produz a arte das trupes mambembes.
Em seus mais de oitenta anos de existência, a maior parte dele ouvindo mais aplausos que vaias, talvez o solo do chão paulistano seja mais fértil por onde pisou Zé Celso e nele despejou sementes do que aquele concretado pelas máquinas dos megaempresários que em deboche jogam notas de real em dobraduras de avião, e isso não tem nenhuma graça artista.
Muitos vivas à arte, e a arte de ser de Zé Celso a própria arte.
Textos e foto: Elisa Marina