domingo, 15 de maio de 2022

Jornalista, ser ou não ser, eis a questão

Representando o Brasil, Mauro de
Oliveira abordou os impactos das
redes sociais na vida dos usuários/
Foto: Arquivo Pessoal

Pedindo licença a William Shakespeare para extrair de sua peça, A tragédia de Hamlet, a frase mais famosa e enigmática para pensar a profissão de jornalista e um receio em exercê-la frente a constantes ataques de governos autoritários, é o caso de se pensar, caros jornalistas, ser ou não ser? O mais recente caso deixa bem claro esse contexto. No último dia 13 de maio, o exército de Israel invadiu o funeral da jornalista palestina Shireen Abu Akleh e derrubou seu caixão no chão. Executada com um tiro no rosto enquanto exercia a profissão, Shireen não teve direito nem a um funeral digno.

A credibilidade do que se escreve e sobre quem se escreve é questionada, quando não, ameaçada. E como se não bastasse tudo isso, este profissional ainda vê suas matérias competirem de igual com conteúdos falsos ou equivocados, popularmente conhecidos como fake news, cujos propósitos são alarmar a sociedade, massificar a desinformação, produzir o caos a fim de atrair seguidores para os interesses de quem os divulga. Um exemplo clássico foram as mentiras criadas em torno da vacina para a Covid-19, mesmo com todas as evidências científicas comprovadas com relação as suas eficácias, e sem efeitos graves. Muitos recusaram o imunizante por "ouvirem dizer que os efeitos colaterais seriam danosos ao organismo".

O jornalismo tem como objetivo a investigação e apuração dos fatos, e o que daí for extraído torná-lo público. E quando o exposto é aquilo o que se pretendia esconder, o jornalista vira ele próprio notícia do jornalismo. Somente no Brasil, os ataques a profissionais do setor possuem números significativos, foram 430 ocorrências ao longo de 2021, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, com base na pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA/USP, em parceria com diversas instituições internacionais.

A violência contra o jornalista e a desvalorização do profissional criaram uma atmosfera de desinteresse para atrair novos candidatos, e sendo assim qualquer um que cria um blog se sente autorizado a se autodenominar jornalista, como se para isso bastasse apenas saber escrever, ou se posicionar bem a frente das câmeras. Para o mestre e doutor em Administração e Marketing pela FEI, jornalista e matemático Mauro de Oliveira, à frente da agência de comunicação Noticiando, e pesquisador associado da FEI, onde publica artigos e pesquisas científicas, como também em jornais internacionais, inicialmente é preciso entender que a profissão de jornalista sofreu um duro impacto com o fechamento das redações, principalmente da mídia impressa, e como consequência o desemprego para a categoria só aumentou. E mais, a informação na era digital se aproxima mais de um mundo sustentável. A produção de jornais e revistas em papel, além de tudo, é mais cara. E o impacto negativo é que a qualidade na apuração dos fatos ficou posta em cheque, sobretudo porque muitos sites passaram a trabalhar com poucos jornalistas, logo o release [texto enviado pelo assessor de imprensa ao jornalista como sugestão de pauta] que o assessor de imprensa encaminha para determinado veículo vira a própria matéria daquele site. Para ilustrar a tragédia, Oliveira relembra uma ocasião em que começou a receber muitas ligações com pedidos de emprego, o que lhe causou certa estranheza. Acontece que o seu release, que continha seus dados, fora publicado na íntegra, sem que ao menos o profissional da redação se desse ao trabalho de retirar o número de celular do assessor de imprensa, no caso, Mauro de Oliveira, que faz assessoria de imprensa para o Núcleo Brasileiro de Estágios, o Nube – Estagiários e Aprendizes.

Pavor de textão

Ao contrário do que dizem por aí, o brasileiro lê. Contudo, a dúvida é o que os leitores brasileiros estão consumindo? Uma característica interessante é a aversão que muitos têm a textos longos, o famoso textão. Logo, notícias que requerem um trabalho de apuração maior, como estudos econômicos, dados trabalhistas, por exemplo, e que impactam diretamente a vida cotidiana das pessoas, rendem textos muito longos, o que acaba por desanimar o leitor.

A Satisfação com a Vida Influencia
o Uso do Facebook
(tradução ao tema
da palestra de Mauro de Oliveira,
na conferência internacional

Não por acaso, no ranking das matérias mais lidas nos principais portais de notícias, os conteúdos classificados como "fofocas" aparecem no topo.  Mauro de Oliveira entende esse fato como um cansaço com informações, digamos assim, mais pesadas. As pessoas querem aquilo que irá lhes trazer leveza. É como se a dureza da vida fosse diluída com a leitura de um texto sobre, por exemplo, o vestido caro da cantora famosa, observa o professor. E isso se reflete até mesmo nas redes sociais, conforme comprova sua tese de doutorado, quando revela que “a satisfação com a própria vida aumenta o engajamento nas redes sociais”, ou seja, aquele que posta conteúdos felizes quer mostrar ao mundo que se é realmente feliz.

Com mais de vinte e cinco anos de profissão, Mauro de Oliveira se mostra feliz como jornalista, sem que para isso tenha que ter o aval de uma rede social. Discreto, publica pouco sobre sua vida pessoal, mesmo quando posto em momentos impagáveis, como quando, em 2018, ao retornar de uma viagem à China, depois de participar como convidado do governo de lá para representar o Brasil em uma conferência internacional de Gestão e Marketing, somente soube que Jair Bolsonaro havia sido eleito presidente do Brasil pelo taxista do Aeroporto de Guarulhos. Oliveira ficou no país asiático por cerca de um mês, e como as notícias por lá eram divulgadas apenas em chinês, idioma que ele não domina, e o acesso a redes sociais, proibido, ficou impossível acompanhar o embate político entre esquerda e direita que ocorria no mundo virtual. Foi então que ele, como cidadão, entendeu e percebeu o quanto é fundamental estar informado. Por isso, avalia, a profissão de jornalista nunca estará ameaçada de extinção por uma razão simples: por mais que haja redes sociais, a imprensa ainda tem credibilidade, e é ela que sempre estará no local dos fatos realizando o indispensável trabalho de apuração, a fim de levar a notícia ao cidadão que realmente quer a informação, conclui.

Texto: Elisa Marina - jornalista

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Chamamento para o Edital da Lei de Incentivo ao Casamento

 

A todos os cidadãos e cidadãs incomodados com o estado civil alheio, a saber, solteiro, separado e/ou divorciado, a Prefeitura Municipal de Curiosidade anuncia a abertura do Edital da Lei de Incentivo ao Casamento.
O presente edital tem como propósito satisfazer aos anseios de desocupados e desocupadas que lançarão mão de seu próprio tempo para incentivar Romeus e Julietas a encontrarem seus respectivos pares.
Para tanto, faz-se necessário que o desocupado ou a desocupada comprovem isenção de problemas quaisquer outros em seus respectivos lares. Será excluído do presente edital aquele ou aquela que por ventura deixar louças por lavar por cinco minutos após o término das refeições. Ou se houver, em um dos cômodos da moradia do desocupado ou da desocupada rastros de sapatos pelo chão capazes de serem detectados pela perícia especializada da nossa CIA (Companhia de Investigação Anônima). Aquele que infringir as regras deste edital ficará sujeito à multa diária de V$ 10 mil verdadeiros.


No entanto, uma  vez aprovado ou aprovada no presente edital, o desocupado ou a desocupada se propõe a realizar eventos com candidatos ou candidatas que obedeçam a critérios específicos e pré-determinados pelos Romeus e pelas Julietas, objetos de ser deste edital.
Por fim, como medida cautelar, e na hipótese de não haver interesse por parte dos Romeus e das Julietas nos candidatos ou candidatas ofertados, o desocupado ou a desocupada se propõe a recolher-se a sua insignificância a fim de cuidar de sua própria vida. Brasil, 2022 d.CTexto: Elisa Marina
Crédito do título: Alessandra Galindo

terça-feira, 10 de maio de 2022

Nando 1 e Nando 2, personagens de uma época sem smartphones

Fachada da escola "Professor
Geraldo Justiniano de Rezende e Silva/
Foto: Oi Diário (2018)
Antes de ler esse texto, exclua toda a sua bagagem de comunicação nesses tempos modernos, a saber, WhatsApp, Messenger, Telegram... porque o propósito dessa escrita é voltar aos tempos em que digitar era o verbo que se tornaria recorrente num futuro muito distante da nossa imaginação. Voltemos, então, a 1992. 

Depois de trinta anos, seria um pouco difícil para mim descrever com exatidão em qual dia do calendário escolar tudo começou, mas a memória é capaz de narrar a história como um todo. Nós éramos duas amigas inseparáveis, alunas de um enfadonho curso de Magistério.

Nenhuma das duas tinha a menor vocação para a arte de lecionar, mas estávamos ali como estudantes que buscavam por um emprego tão logo a formatura ocorresse, e que se tudo saísse dentro dos conformes, em três anos seríamos professorinhas primárias a escrever em lousas verdes de alguma sala de aula do município paulista de Suzano, ou região. Porém, até que o diploma estivesse fixado na parede, era preciso atravessar os anos daquele curso que era um porre de aturar, mas que com o tempo buscamos meios de torná-lo, digamos, menos moroso. 

 

 Iniciamos o curso com uma classe lotada de mulheres de idades variadas, algumas delas até filhos tinham, logo os assuntos fugiam totalmente do que os nossos hormônios em polvorosa queriam ouvir. Onde estavam os garotos? Nas salas do Inciso, o filho mais velho do antigo Segundo Grau, e pai do atual Ensino Médio, nos cursos de Contabilidade e Processamento de Dados, longe do nosso quadrilátero abarrotado de XX, ansiávamos por XY, e o meio mais fácil de se chegar até eles, ainda dentro da sala, era se comunicar através das carteiras escolares, as mesinhas esverdeadas onde a escrita a lápis simbolizavam o extravasar de uma rebeldia juvenil.

Modelo de carteiras escolares nos
 anos de 1990
Então, na matéria amadeirada fez-se a escrita, da escrita, a mensagem, e da mensagem a paquera, e assim se deu as correspondências das garotas do Magistério diurno com os mocinhos da Contabilidade do noturno, eram eles Nando 1 e Nando 2, os Fernandos de nossas vidas escolares.

Se hoje, a expectativa por uma resposta por WhatsApp causa ansiedade, o pior era naqueles tempos enviar a mensagem numa sexta-feira e ter que esperar pela resposta na segunda-feira seguinte, por sinal, uma lição que eu deveria ter aprendido. Mas quem iria imaginar que teríamos décadas depois descendentes rebeldes da comunicação, sendo o WhatsApp o mais conhecido dentre todos, cuja proposta é proporcionar uma troca de mensagens instantâneas, a depender do usuário, evidentemente.

Os nossos Nandos eram ousados. Com o tempo, as conversas foram ganhando ares picantes e empolgantes, e o virtual estava a ponto de deixar o campo do imaginário para se tornar real mais pela insistência deles do que nossa. Acredito que nossos inconscientes já figuravam medos pré-existentes, com um iminente primeiro encontro, e como gentis cavalheiros propuseram vir ao nosso encontro. Vale lembrar que nós não tínhamos a mínima noção de como seriam as aparências dos nossos Nandos, até então amores imaginários.

Dada a nossa empolgação, o assunto já tinha se espalhado pela sala de aula, de modo que no dia combinado para o dating, a audiência feminina vivia a expectativa do tão esperado encontro. A nosso favor, tínhamos a localização da sala, cujas janelas para a rua iriam facilitar uma espiadinha antes para o contato ser menos impactante, no caso de os mocinhos não corresponderem com o que o nosso imaginário nos deixava sonhar. E de fato, como prevíamos, eles não eram gatinhos, ou como diriam as nossas mães, não eram pães, talvez bolachinhas cream-cracker, sem gosto algum, insossas tanto quanto aquele Magistério. 

Acredito que, inconscientemente, foi com essa experiência que nunca dei crédito para paqueras virtuais, porque idealizar uma figura a partir da sua escrita galanteadora é querer forçosamente que a magia se ajuste ao real, o que a meu ver é um grande equívoco. Ali, nossos Nandos não nos encantaram o tanto quanto suas mensagens românticas e divertidas assim o fizeram, porque provavelmente a magia da paquera estivesse na caligrafia que nos fazia imaginar um beijo da boca de um corpo que somente existia na mente, e por lá todas essas sensações devessem  ficar. Contudo, fomos além, arriscamos ao levarmos o nosso simbólico para o real.

É divertido relembrar aquele tempo. Essa história havia caído no esquecimento, mas foi recordada na quinta-feira, 5 de maio, durante conversas de encerramento de uma oficina de escrita para a qual fui convidada a organizar. O papo fluía sobre a comunicação por WhatsApp, meio pelo qual os sujeitos são revelados. Há os que respondem, os que ignoram, os que apenas dão bom-dias, os que trocam piadinhas ou textos políticos, os que fingem não ler… Foi aí que ao acaso eu pensei naquele tempo gostoso de escrever sem o medo bobo de achar estar incomodando o destinatário por simplesmente escrever, porque estes estão entediados demais, irritados demais, cansados demais, é o "estar de saco cheio" que os conduz a sujeitos escravizados por essa política neoliberal de aprisionamento dos corpos, onde dizer que não se tem tempo ao outro é dizer da sua importância no mundo, logo, os gentis e cordiais são os desocupados.

“Não dá para dizer tudo”, foi o tema da referida oficina. Nem escrever tudo, nem postar tudo. Mas dá para deixar de ser mais do mesmo? E retomar a nostalgia de uma comunicação que falava e ouvia, lia e respondia, um diferencial num mundo cada vez mais surdo e mudo. “Por um corpo escrita”, o subtítulo da oficina diz muito desses tempos de emojis, substitutos das palavras. Nossos corpos desejam falar, e também serem escutados.

Texto: Elisa Marina

Foto: Oi Diário

quinta-feira, 28 de abril de 2022

O Brasil revelado na literatura de Ignácio de Loyola Brandão


Evento aconteceu no Cineteatro 
Wilma Bentivegna, em Suzano
Foto: Escobar Franelas
Loyola é um narrador da vida. Seu olhar peculiar para o Brasil antecipa o que iremos ver mais à frente. Assim foi com Não Verás País Nenhum, romance apocalíptico que em 1981 já desenhava o Brasil de hoje. Há ali um líder negacionista, há um vírus letal que mata 200 milhões de habitantes, há o sufocamento pela destruição da vida verde, há o medo, há a opressão, há o autoritarismo, há solidão. Mas não aquela do seu espetáculo, Solidão no fundo da agulha, em que divide o palco ao lado da filha, a cantora e atriz Rita Gullo. Loyola nunca foi solitário, seus personagens reais e imaginários lhe acompanham desde sempre. Com ele, conhecemos a professora primária Lurdes Prado, a Vanda, a Odete, a Clélia, Chiquinho Franco, Cidinha Valério, Jurandir...personas da sua vida real.

Quando em palco, Loyola repousa a caneta, e o microfone dá voz a histórias onde todas essas pessoas se encontram, e imortalizam-se em suas crônicas, narradas com o mesmo encanto ao daquele jovem que quando dava os primeiros passos no jornalismo ouviu o conselho do cronista que lhe inspiraria para a vida toda, Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico, garoto, olhe para a janela. É lá que está a vida. Afinal, a vida para Nelson, é como ela é.

Loyola, imortal desde 2019, foi luz aos mortais que se dispuseram a ouvir suas histórias no dia de ontem, em uma quente noite de outono na cultural cidade de Suzano. Ignácio de Loyola Brandão retornou à cidade como escritor convidado da primeira edição pós-pandemia do Trajetórias Literárias, evento organizado pelo também escritor Ademiro Alves, muito mais conhecido como Sacolinha.

Ao longo de sua carreira de escritor, o araraquarense Ignácio de Loyola publicou 47 livros, escreveu mais de 2.500 crônicas e inúmeros textos jornalísticos, muitos destes ganharam vida no extinto jornal Última Hora, nas revistas Cláudia e Vogue, só pra citar alguns veículos. Por sinal, foi nesta última em que tive a honra de ter Loyola como meu editor. Era 1997, lembro-me do dia em que cheguei à sede da revista Vogue para apresentar meus simplórios textos publicados nos jornais produzidos por nós, alunos de Jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes. 

Livro, publicado em 1981, é um
de seus livros mais vendidos 


Assim que entrei naquela mansão neoclássica, eu não tinha a pretensão de ser recebida por ele, fui com o objetivo único de deixar meu currículo na recepção. Mas o inesperado aconteceu. E eis que de repente, aquela mesma recepção servia de cenário para uma foca mostrar seus escritos para um consagrado jornalista e escritor. E sobre o que ela falava? Da vida acadêmica, das áreas do conhecimento, e de trigonometria, um palavrão matemático que me causa arrepios até hoje. E Loyola, com a sua gentileza e cordialidade, após passar os olhos pelas páginas do tabloide, fixa o olhar por minutos no meu texto, para depois erguer a cabeça, encarar uma amedrontada jornalista recém-formada, e pronunciar a frase mais imortal dentre todas: quem escreve sobre trigonometria pode escrever sobre qualquer coisa.

Caro Loyola, hoje respondo àquela provocação de 1997. Já escrevi sobre muitas coisas. Com você, até o ano 2000, sobre moda e estilo de vida, sem você, sobre política, erotismo e a perversidade humana. Mas com todo o prazer do mundo lhe digo que nunca mais escrevi sobre trigonometria. No entanto, se um dia a pauta da vez for sobre geometria ou qualquer outro palavrão do mundo das Ciências Exatas irei entrar naquele transporte mágico que nos leva para o mundo da fantasia e de lá retirarei o seu imortal conselho, que diz ser ela [a fantasia] que nos ajuda a suportar a vida.

E principalmente hoje, tempos em que a Cultura clama por artistas insólitos, nos cabe também reproduzir a pergunta que intitula seu livro recém-entregue à editora: Deus, Por Que Você Não Diz O Que Quer De Nós? Contudo, se ele não nos responder, ainda assim nós continuarem em frente, porque com a nossa resistência imortal, aprendemos a fantasiar a vida. E isso nos basta.

Texto: Elisa Marina

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Espetáculo de Inês Bogéa abre a 2ª Mostra de Dança de Suzano

Espetáculo Pas de Deux de Paquita (2022) será
apresentado nesta quinta-feira, 28, em Suzano
Foto: SPCD/Divulgação
A São Paulo Companhia de Dança, sob direção artística da bailarina e coreógrafa Inês Bogéa, abre a 2ª Mostra de Dança de Suzano, que começa amanhã, 28, e vai até o dia 9 de maio. É a primeira vez que o maior grupo de ballet da América Latina se apresentará na cidade. 

Organizado pela Secretaria Municipal de Cultura de Suzano, o evento contará com atividades em toda a cidade, com apresentações no Teatro Dr. Armando de Ré, na Praça dos Expedicionários, Parque Max Feffer e Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi. Estão programados oito espetáculos gratuitos, palestras, rodas de conversa, aulas abertas, oficinas de dança, e uma Mostra Competitiva em parceria com a Promodança Sp.

A participação da São Paulo Companhia de Dança nesta edição da Mostra começa às 14h30 com uma Oficina de Balé Clássico ministrada no Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi por Diego de Paula, bailarino da SPCD nascido em Suzano. Na sequência, às 15h50, a diretora Inês Bogéa realiza a palestra Dança em Construção, onde abordará o caráter coletivo na construção dos espetáculos.

Mais tarde, às 19h, a SPCD faz a abertura oficial do evento no Teatro Municipal Dr. Armando de Ré, levando ao palco o Pas de Deux de Paquita(2022), de Diego de Paula e interpretada por ele e Nayla Ramos. A programação segue com a apresentação de grupos locais de dança.


2ª Mostra de Dança de Suzano

De 28 de abril a 9 de maio

Centro Cultural Francisco Carlos Moriconi – R. Benjamim Constant, 682 – Centro

Teatro Municipal Dr. Armando de Ré – R. Gen. Francisco Glicério, 1.334 - Centro

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A imprensa e o fuxico dos fatos

Lázaro Ramos estreia na direção de longa-
metragem com Medida Provisória/Reprodução:
Facebook
Era certo que, assim como a soma de dois mais dois é igual a quatro, haveria uma réplica do... daquele...do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo à resposta do ator e diretor Lázaro Ramos após sua presença no centro do programa Roda Vida da TV Cultura, ocorrida na última segunda-feira. O motivo da ira do servidor público bolsonarista ocorreu por conta de uma episódio recente relembrado pela jornalista Marina Caruso, em que Sérgio Camargo, e o... o... o secretário da Cultura, Mario Frias, criticaram publicamente ele, Lázaro, e sua companheira, a atriz Taís Araújo, dizendo que "o casal não faz nada pelo país". E mais, que "Taís Araújo seria uma mimizenta". A isso, Lázaro atribui o fato como uma cortina de fumaça, uma campanha política que se vale da notoriedade artística do casal. A atriz, ao participar de modo remoto do programa Altas Horas, no último sábado, chamou de "infernais", os anos do governo Bolsonaro. A partir de então surgiu a onda de ataques.  

Lázaro Ramos é diretor do filme protagonizado por Taís, Medida Provisória, de 2020, que só agora chega às salas de cinema. O longa de estreia do ator na direção de um longa conta a história de um Brasil distópico, no qual um governo não especificado decide enviar todos os cidadãos negros para viver na África para supostamente remediar os males causados pelos anos de escravidão. O filme é baseado na peça de 2011, Namíbia, não!, de Aldri Anunciação, também dirigida por Lázaro. 

Filmado em 2019, finalizado em 
2020, longa enfrentou resistência,
do governo, e só agora chega
às salas de cinema
 

Sergio Camargo embasou sua réplica a partir da própria sinopse do filme. "Os negros de esquerda deveriam ser mandados embora para a África", declaração essa postada em sua conta no Twitter, veículo pelo qual toda a verborragia bolsonarista é publicada, uma vez que a imprensa, desqualificada pelo próprio presidente, e ignorada pelo seu entorno, se coloca no triste papel de ser porta-voz de futrica. Para abastecer seus leitores com informações, esta chega a ultrapassar o limite da razoabilidade e se comporta como leva e traz dos fatos. Ora, se o próprio presidente praticamente só fala para a sua claque em seus canais pessoais, não estaria a imprensa servindo de expositora da popularidade de Jair Bolsonaro e seus apoiadores?

Evidentemente que, como chefe do Executivo, naturalmente ele é notícia quando de sua agenda oficial, no entanto, sabemos, que Bolsonaro não saiu do palanque desde 2018, terceirizando seu governo, para se valer apenas do papel de atacar aqueles a quem chama considera inimigos, aí vale para a imprensa, e até mesmo os imaginários. Lembremos que Bolsonaro chegou à presidência do país utilizando-se desses mesmos ataques midiáticos, que abriram caminhos para que o então parlamentar inexpressivo chegasse à grande imprensa e, assim, ganhasse popularidade. Afinal, de que outro modo um deputado federal pertencente ao baixo clero, com parcos projetos de sua autoria, se tornaria notícia? Seria arriscado projetar à imprensa a razão de sua ascensão política?  Talvez não.

Cercadinho, ou popularmente
conhecido como chiqueirinho,
é um espaço destinado para o
entretenimento infantil

Jair Bolsonaro, aquele que preside o Brasil, sempre deixou evidente a sua aversão à imprensa, discurso seguido em larga escala por seus apoiadores, estejam eles em cargos públicos, elegíveis ou não, ou então pessoas comuns que o idolatram e se identificam com os seus ideais. Sua propaganda pessoal se estrutura estrategicamente dos tuites diários, das lives semanais em seu canal no Youtube, e da exposição no "cercadinho" do Alvorada, espaço reservado no jardim da residência oficial do presidente da República.

De que valeram os ataques constantes nos últimos anos quando se nota uma imprensa subserviente e fuxiqueira? Informar pede sempre uma boa dose de sensatez, e dar palanque a mal político com o propósito de expor suas fraquezas pode ter um efeito contrário. E a história deixou isso bem claro nas eleições presidenciais de 2018.  

Texto: Elisa Marina

Fonte: Uol


quarta-feira, 30 de março de 2022

Salvador Dalí e o cansativo bloqueio ao nu feminino

 

 

In Voluptas Mors(1951), três horas
para ser concluída

Ser bloqueada no Facebook é estranho. Parece aquela situação em que um adulto pune uma criança com o castigo de ficar calada lá no cantinho do pensamento. No caso, a punição na rede social é ficar numa ausência forçada por dois dias, com proibições à postagens e publicações de comentários nas páginas dos contatos. Só é permitido espiar, nada mais.

No entanto, quando o bloqueio acontece por ofensas a terceiros, é compreensível a ação se a política da rede social consistir em  evitar um ambiente tóxico pelos comportamentos agressivos que vierem a ocorrer. Acontece que, a mim me causa espanto ver um trabalho artístico censurado por causa de um viés conservador. Sim, ele existe até dentro do admirável mundo moderno da tecnologia.

Salvador Dalí (1904-1989), o gênio pintor espanhol do surrealismo, expressionismo e realismo teve uma obra censurada na rede social por não estar em acordo com os “padrões daquela comunidade sobre nudez e atividade sexual". Atividade?

Extravagante e ousado, Dalí sempre chamou a atenção pelo figurino que mostrava uma personalidade excêntrica. Em 1925, realizou sua primeira mostra individual, mas no ano seguinte, acabou expulso da Academia de Artes por se desentender com um professor e declarar que ninguém por lá era capaz de avaliá-lo, por sinal, como hoje parecem demonstrar os manipuladores dos algoritmos que conduzem as ações nessas redes sociais. Aí então, a imagem do bico de um seio torna-se censurável, e não importa o contexto em que esteja retratado o nu feminino, pode ser em  uma foto tirada numa praia de nudismo ou pintada em uma obra de arte antiquíssima, mesmo que ambas já tenham sido vista por milhões de pessoas nos museus da vida.

Por qual razão censura-se o bico de um seio? Afinal, de onde sai o alimento natural, necessidade primária de todo ser mamífero? Deturpado, o belo é transformado no feio, em algo repugnante, logo, razão de censura.  

Trabalho faz parte de uma série de 
quadros vivos realizados por Dalí
e Halsman
Uma obra de arte é a expressão artística por excelência. É quando, através dela, o artista imprime em tela, por exemplo, o mundo para além das paredes impregnadas de pudor, racismo, transfobia, misoginia e que aprisionam o senso comum com um deliberado falso moralismo. A arte é o meio libertador de posicionamento nesse mundo que insistem em aprisionar corpos, amordaçar ideias, apagar as falas.

 In Voluptas Mors, algo como “no prazer há morte”, foi concebida em 1951 por Salvador Dalí em parceria com o fotógrafo Philippe Halsman. Nela, sete mulheres nuas se posicionam de tal modo que uma caveira é formada com seus corpos. A performance fez parte de uma série de quadros vivos que Halsman realizou com Dalí no final dos anos de 1940 e início de 1950. Esses quadros exigiam muito trabalho, rolos de filmes e horas de montagens para transpor em fotografias o imaginário realista.

Se no prazer há morte, para Dalí e Halsman, há morte na arte? Ou a morte à arte é prazer que satisfaz os conservadores que dela se utilizam para dar vida a seus gritos reprimidos? Porque nem sempre a nudez deverá ser castigada.

Texto: Elisa Marina