terça-feira, 26 de março de 2024

Era uma vez uma redação

 

Prédio onde por anos foi a sede do
jornal O Diário de Mogi/ Foto:
Elisa Marina

A carcaça do que um dia fora um prédio dá de ombros para a engenharia e arquitetura nele investidas. A carcaça da redação de um jornal simboliza o que hoje é o jornalismo e a sua chegada na era da pós-verdade. 

No final dos anos de 1990, estagiei por pouco tempo na redação de O Diário de Mogi, ocasião em que conheci uma cidade que os meus quatro anos na Universidade de Mogi das Cruzes, a UMC, não me fizeram ver. Nosso olhar de estudantes de jornalismo nos fechava ao que acontecia apenas nas dependências do campus universitário. Não nos cabia escrever sobre o nosso entorno, mas ao que se passava dentro dos muros da faculdade. 

Por isso, entrar na redação de um jornal "de verdade" era sentir de perto a pulsação do jornalismo vivo, aquele que apura a informação e leva ao leitor a verdade dos fatos. De nada valia a nossa opinião, estávamos ali para fazer a ponte entre o furo de uma reportagem e o cidadão comum, a quem devemos informar.

Dar à imprensa a legítima alcunha de quarto poder (disputando lugar com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário), dizia muito mais do direito a todos ao acesso à informação do que encher de vaidades seus profissionais. Quer mais perigo a um governo do que um povo abastecido de informação?

Hoje, o jornalismo resiste como pode, pois divide espaço com quem supõe que escrever qualquer bobagem alicerçada de achismos é o mesmo que noticiar um fato. Não, não é! Chegamos ao ponto de - nós, os jornalistas com registro e formação - disputar voz e vez com in (fluência) a (dores) digitais e midiáticos que como tais convencem seus milhões de seguidores com as suas pós-verdades. Idealizam. Supõem. Escrevem. E em hipótese alguma editam, que se fosse obedecer ao crivo de uma edição jornalística, do texto não se salvaria nem o título.

Quando assumiu a presidência, Jair Bolsonaro não poupou críticas à imprensa, o que perduraria por todo o seu mandato. E a razão por trás da tática era simples: jogar seus seguidores contra os jornalistas a quem ele dirigia seus impropérios, a saber, Rede Globo (emissora líder de audiência), e os principais jornais impressos, e assim sem dar a chance a seus eleitores que tirassem suas próprias conclusões dos fatos, pelo contrário, a intenção era que seus apoiadores sequer assistissem ou lessem o que era notícia nesses veículos, e mais, plantar a dúvida, desconfiar, para que a sua “verdade” fosse a única fonte de informação de seu cercadinho, por sinal, um local que os jornalistas abandonariam mais tarde devido aos sistemáticos ataques do próprio presidente.

O governo Lula, que hoje ocupa a presidência, é democrático, não desqualifica nem censura o trabalho da imprensa. Mas as estruturas do jornalismo foram abaladas, e o que entristece não é ver apenas um prédio em ruínas, afinal há também que se considerar que os tempos são outros, as mídias sociais fizeram diminuir consideravelmente o número de profissionais nas redações, e o trabalho remoto passou a ser o novo normal. Mas ver ruir a razão de ser do próprio jornalismo é entender que um país cada vez mais carente de uma educação de qualidade vai deixando seus cidadãos facilmente manipuláveis nas mãos daqueles que defendem apenas seus interesses, e assim direcionar como os fatos chegarão aos cidadãos. E se é que chegarão…

Por Elisa Marina 

quinta-feira, 21 de março de 2024

O voyeurismo das moscas

 

Mosca macho emite vibrações como 
forma de cortejar a fêmea
Ela voa, e seu bailado desenha no ar sinuosas curvas idiossincráticas. Ali, ela é apenas uma bailarina solitária e invasora sem importância nenhuma para os donos da casa, e muito menos para a aranha deitada em sua teia no canto do chão de madeira, que não faz ideia de que sua fome poderia ser saciada com o alimento que voa dois metros acima do seu cansaço. 

A mosca pousa onde seus instintos de inseto entendem ser seguro, a saber, o canto esquerdo do batente, cuja porta permanece aberta e muda, para alívio da mosca, que quer silêncio absoluto na casa que habita há meia-hora, apesar de ser uma mosca sem ter a posse de uma escritura da casa que ocupa.

Dali, ela os vê chegar, em passos lentos e corpos enroscados, o casal de humanos deixa-se cair na cama bagunçada, e por onde ela, a mosca, esteve minutos antes, impregnando nos lençóis de seda um odor fétido de restos da comida que apodreciam na lixeira da cozinha, cômodo este que ela conhecia melhor que os donos de fato e de direito do imóvel. 

Pelo canto dos olhos, ela vê o humano macho despir o humano fêmea em lentidão semelhante a seu voo. Ela então dá dois passinhos para a direita se posicionando num ângulo perfeito para apreciar o vai e vem daqueles corpos. Os humanos alternam suas posições na cama. 
Moscas acasalando encontradas em âmbar
de 41 milhões de anos. 
Imagem: Jeffrey Stilwell

Agora o 
ângulo desfavorece seu olhar de voyeur. É preciso um giro de cento e quarenta e cinco graus para enfim poder deliciar-se com a cena. Eles gritam e gemem, e os sons são captados por suas antenas e decodificados para a comunicação dos insetos, ela passa então a emitir vibrações, no instante que suas patas dianteiras se erguem para ao alto ela orar ao deus dos insetos que ele proteja o casal na cama, não quer que eles caiam, uma vez que o barulho dos corpos ao chão tomar-lhe-ia de susto e ela de certo voaria.
Presa à parede, ela vê os corpos grudados, enquanto os sinais que emite são captados pelo outro invasor, a mosca fêmea, que voou por todos os cômodos da casa até encontrar-se com seu par, tomada de instintos primitivos de fêmea, e logo pousa ao lado do seu macho, excitada também assisti ao coito alheio. 

A mosca dominante e o macho humano conduzem suas fêmeas para dentro de seus corpos, cada qual se satisfazendo à sua maneira.
No entanto, antes que ambos cheguem ao ápice do clímax, o humano abandona a sua fêmea e um cheiro forte nada excitante, porém sufocante invade o cômodo, e o suficiente para enrijecer seus corpos que paralisados caem ao chão num silêncio sepulcral. 

Assim sendo, e sem qualquer resquício de remorso, os humanos retomam o coito ora interrompido pelo acasalamento indefinido do casal de moscas que agora são apenas dois corpos mortos devorados pela aranha. 

Por Elisa Marina 

domingo, 14 de janeiro de 2024

“Eu te amo”, expressão nascida na modernidade e imortalizada no cinema

Julia Roberts e Woody Allen, em cena de
Todos Dizem Eu Te Amo/Reprodução

Todos dizem eu te amo (Everyone Says I Love You/1996). Título do longa de Woody Allen, o filme fala sobre o amor e suas pulsões. Um casal apaixonado tem o amor ameaçado quando a esposa é apresentada a um ex-detento. Completando a confusão, o pai dela viaja para Veneza e acha que conheceu a mulher de sua vida. 
Trazendo o título para os nossos dias, “eu te amo” é a expressão do amor em sua singularidade, dita e repetida inúmeras vezes  - afinal, todos dizem - a tal ponto que o seu sentido ipsis-litteris perde força quando sua banalização desloca do real posto aqui “inconscientemente” em segundo plano. 

No portal da Academia Brasileira de Letras, um artigo do escritor Geraldo Carneiro, publicado originalmente em 2017 no jornal O Globo, discorre sobre a origem do “eu te amo”, e que este blog publica na íntegra.

“Sempre me perguntei quando é que a expressão eu te amo começou a ser usada aqui no Brasil. Não me lembro de ter lido a frase nos clássicos portugueses, nem em Machado de Assis, nem nos modernistas paulistanos. Repeti a pergunta a minha querida Nélida Piñon, e ela, com sua autoridade literária, confirmou que o eu te amo é uma expressão recente entre nós.

Sem dúvida houve a influência do cinema americano. Noel Rosa já reclamava disso nos anos 30: “Amor lá no morro é amor pra chuchu/ A gíria do samba não tem I love you.”

Na minha infância, nos anos 50, nunca ouvi meu pai dizendo eu te amo à minha mãe, nem minha mãe dizendo eu te amo a meu pai, nem a nós, seus filhos. Talvez naquele tempo o amor fosse mais recatado. Embora grande, o amor era sagrado, secreto, subjacente, não precisava que a gente se declarasse o tempo todo.

Me lembro, por exemplo, da música A Noite do meu bem, de Dolores Duran. Eu ainda não sabia o que era o amor, mas essa canção me deixava comovido como o diabo, como dizia o Drummond. Aliás, “meu bem” rolava muito lá em casa.

O principal responsável pela introdução do eu te amo no Brasil talvez tenha sido o poeta Vinicius de Moraes. Ele escreveu o “Soneto do amor total”, que começa assim:

“Amo-te tanto, meu amor, não cante

O humano coração com mais verdade;

Amo-te como amigo e como amante,

Numa sempre diversa realidade. (...)”

Eu sei que “amo-te” não é igual a “eu te amo”. A maneira de falar, a sintaxe ainda é meio lusitana. Mas na canção “Por toda a minha vida”, com música de Tom Jobim, Vinicius escreveu: “Eu te amo e te proclamo/ o meu amor, o meu amor.”

Agora, para aclarar as minhas trevas, saiu pela Companhia das Letras uma coletânea de textos de Vinicius, “Todo amor”, organizada por Eucanaã Ferraz. Uma reunião de algumas das mais belas palavras de amor no Brasil do século XX. Porque foi Vinicius quem mais praticou e falou sobre a arte de amar por aqui.

Às folhas tantas deste livro me deparo com uma carta do poeta para Beatriz de Moraes, com quem ele havia acabado de se casar pelo correio, por procuração. A carta é de 1938, quando o poeta estava em Oxford, usufruindo de uma bolsa de estudos. E depois de declarar a sua amada que “tu és minha vida, meu tudo (...) Eu sou teu escravo, teu criado, tua cria e tu és a minha namorada ilícita e esposa amantíssima (...)”, Vinicius arremata: “E te amo tanto que às vezes fico com vontade de dar urros de amor.”

É o primeiro te amo por escrito que eu conheço.

Dirá você que, no século XXI, as palavras de amor perderam muito prestígio. Serei forçado a concordar. Hoje todo o mundo diz que ama todo o mundo. Mas as pessoas, felizmente, continuam se amando. E basta que se leia a poesia de Vinicius para que as palavras ganhem de novo seu frescor original. A poesia sempre renasce. Haverá sempre um novo Romeu da Ilha do Governador que dirá, como se fosse a primeira vez, ao pé da janela de sua Julieta pós-moderna: eu te amo.”

Portanto, “eu te amo” revela mais um desejo de dizer do que de ouvir? Diria que é uma via de mão dupla sedimentada até que rompam-se os laços, e o tal amor antes dito é silenciado; mais tarde, aquele “eu” de outrora dirá o seu amor a outro ouvinte. 

Por Elisa Marina 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

As crianças nos carros à frente não nos acenam

 

Legislação determina cadeirinhas e assentos
específicos de acordo com o tamanho e idade
da criança/ Imagem: Doutor Multas

Eram os anos de 1980. Época em que os adultos fumavam na nossa frente, nas nossas costas e nos cômodos fechados onde brincávamos. Podia ser no playground coberto de um restaurante, no salão de festas do aniversário do coleguinha, e todo e qualquer lugar em que estivessem. E sem querer, nós éramos mirins fumantes passivos que até podíamos comprar um maço de cigarros no bar da esquina mas nunca tragar uma bituca. Aos 95 anos de idade, ela continua a afirmar que começara a fumar ainda criança, e pelas mãos do avô. E o pai do Luiz Felipe que achou graça quando o flagrou com um cigarro na mão? Até hoje, com seus 52 anos, ele jura de pé junto jamais ter colocado aquele cigarro na boca.


Em sua maioria, os adultos nos protegiam, enquanto que  os homens da lei pareciam pouco se importar conosco. Nas bancas de jornal, havia capas de revistas com mulheres (e nenhuma com homens) em posições que as faziam expor tudo o que os nossos pais nos proibiam ver. A famosa rainha sem coroa, com seus colantes cavados, divertia a criançada pela manhã e no filme proibido alegrava marmanjos e baixinhos com mais de dezoito anos de idade, pelo menos é o que achávamos, até vir à tona a tal cena erótica envolvendo um menino menor de idade. Abafemos o caso.

Acho que os adultos nos protegiam, já os homens da lei nem se importavam com a nossa segurança nos bancos dos automóveis. Espremidos, viajávamos por horas junto ao frango assado na forma socada no bagageiro. Quando não estávamos em pé no banco - aos que o tamanho lhes permitia - a diversão era ajoelhar-se para, de costas para o motorista, acenávamos para os motoristas que nos seguiam. Valia acenar como também mostrar a língua. E que pai, mãe, ou seja lá o condutor, que vigiava o comportamento dos pirralhos se a obrigação deles era manter o foco na direção do veículo? Cabe destacar que a maior parte dos motoristas era bem gentil e igualmente acenava com sorrisos e risadas.
 
Então eu cresci e me habilitei, e meio que ao acaso me dei conta de que não há mais crianças expostas nos vidros traseiros dos veículos. Onde elas estão? Pausa. Claro, elas estão sentadas nos bancos, em cadeirinhas, assentos específicos, presas a cintos de segurança, em conformidade com o que determina as leis vigentes.

Em acordo com o Código de Trânsito, os chamados Sistemas de Redenção Infantil - SRI são fundamentais para proteger os pequenos em situações como freadas bruscas e acidentes de trânsito, um avanço inquestionável, no entanto, um saudosismo me atravessa quando sei que dificilmente uma criança irá acenar para mim e eu acenar de volta com sorrisos e gargalhadas. Aliás, os vidros agora escurecidos, os  encostos altos não nos permitem sequer enxergar se há alguma criança no carro da frente, sequer acenar. 

Evidentemente que não que se retroceder, mas a interação com o outro estranho a mim era um comportamento que muito revela em comparação com as crianças de hoje, uma geração impactada pela perda das interações sociais. E o horizonte que se avista é um cenário com muitos mundos, porém isolados entre si.

Por Elisa Marina 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Ler e ver Carolina Maria de Jesus

 

Depois do sucesso de Quarto
de Despejo, Carolina Maria de
Jesus morre pobre e 
ignorada pelo público 


Lemos em nossas salas de estar Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Lemos seu infortúnio despejado em papel nas páginas de seu 
Quarto de Despejo (Ed. Ática). Despojados em nossos sofás, fixamos os olhos nos dias morosos que se seguem dos idos 1950. É tão 2023 que a ficção que desejaríamos ver escrita, é na verdade a realidade que não gostamos de ser contada nos parcos cruzeiros que equivalem a  uma sopa de ossos, ou um pão duro recheado com desilusão. 

Na cozinha dos nossos desejos, o estrogonofe na panela não nos faz sorrir, mas o mesmo prato faria Carolina gargalhar, e seus filhos se acharem ricos com o banquete na mesa. Domingo tem macarronada? Tem, sim senhor, e quarta-feira, feijoada, as nossas graças sem risadas. 

Carolina, caso fosse contemporânea dos nossos dias, e o seu martírio televisionado - como o fora nos seus 1960 -, estaria você prestes a deixar o seu barraco para ganhar em minutos uma mansão de porcelanato, talvez nome para outro livro. Bastaria a seus filhos nos entreter com números circenses, como parte do quadro de um programa dominical, ou então que você dramatizasse em discurso a sua própria história a fim de manter alta a audiência de uma atração matinal, e de preferência com a sua roupa mais surrada, para fazer chorar a apresentadora elegantemente vestida. Por conseguinte, ela pediria para você contar as brigas na sua Canindé protagonizadas por bêbados esfarrapados e mulheres casadas que faziam pornografia com seus amantes, sob os olhares dos filhos da Canindé. Carolina, um instante. Meu recado é para você que está aí em casa. Está esperando o que para adquirir o seu seguro-residencial e assim proteger os seus bens diante da violência urbana que só cresce? Adquira agora mesmo, basta direcionar a câmera do seu celular para o QRCode que está aparecendo aí na sua tela. E no próximo bloco, mais história da escritora Carolina Maria de Jesus, não saia daí".

Gozamos e gozaríamos com as suas narrativas, Carolina, e por pouco tempo, porque como diz a sempre atualíssima máxima jornalística: “o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã”. E na manhã do dia seguinte estaríamos a nos emocionar - e por breve período, não nos esqueçamos disso - com outra história de "superação", como bem nos ensinam os coaches midiáticos.

Os 118 barracos da Canindé de Carolina Maria de Jesus multiplicaram-se por dez, cem, mil, e neles quantas Carolinas habitam os quartos de despejo - sem desejos - que sobrevivem em contemporaneidade com as salas de estar? Em 2023 Audálio Dantas não adentraria a favela, certamente assombrado pela atuação do tráfico e da milícia, mas muito provavelmente encontraria com uma Carolina perambulando pelas ruas de São Paulo a catar qualquer coisa com seus filhos sem pai, onde um deles - por sorte - seria apenas parado (e não morto) pela polícia após telefonema do cidadão de bem ao assustar-se com a presença do garoto que vende balas no farol.

Carolina, aquela sociedade que te explorara quando lhe pagava uma mixaria pelos recicláveis que você catava e pelos manuscritos que escrevia, hoje escancaradamente confirma que a sala de estar nunca olhou para o quarto de despejo, as moradias das Canindés em que habitam milhões de Carolinas, suas descendentes de infortúnio.

Por Elisa Marina 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A histeria conservadora contra a instalação de banheiros unissex

Shopping de Santo André adotou a ideia em suas
dependências/ Foto: Reprodução 
O Projeto de Lei 4019/21 proíbe, em todo o País, banheiros e vestiários públicos “na modalidade unissex”. O texto se refere a estruturas multigênero, livres ou neutras que podem ser utilizadas por qualquer pessoa, não apenas as do gênero masculino ou feminino. A proposta tramita na Câmara dos Deputados. O texto aguarda a designação de relator na Comissão de Desenvolvimento Urbano. 

Enquanto não há uma lei federal, legislativos municipais se articulam. No ano passado, em Minas Gerais, a Câmara Municipal de Juiz de Fora, aprovou, em 3 ª discussão, o projeto de lei (PL) que tem por objetivo vedar a instalação e adequação de banheiros e vestiários, em estabelecimentos públicos e privados, para uso por pessoas de sexos diferentes em locais de acesso do público em geral, como shoppings, bares, restaurantes, supermercados, agências bancárias, escolas, institutos, dentre outros. Em sua redação, o PL deixa claro que a norma não se aplica aos locais em que exista apenas um único banheiro ou vestiário, desde que garantam condições de privacidade individual a quem dele se utilizar. 

Políticos conservadores se esquivam de uma discussão mais racional para preservarem um discurso que dialoga com suas bases eleitorais, embasados por uma orientação religiosa que se distancia cada vez mais das demandas da sociedade.

Para além de uma deturpação do que se define como “ideologia de gênero”, uma fértil imaginação supõe que aquilo que foge a um padrão heteronormativo seria livremente associado a condutas exclusivamente sexuais, ou seja, banheiros unissex seriam ambientes propícios para a libertinagem sexual, ou então para o assédio e o estupro. Nesse sentido, seria oportuno lembrar dos casos nos transportes públicos. Logo, a racionalidade e a razoabilidade saem de cena para fazer valer a histeria delirante. Portanto, saindo do moralismo calcado na religião e se encontrando com a realidade, em qual das duas únicas opções (feminino e masculino) seria permitido a um homem entrar caso sua esposa acometida pelo Alzheimer necessitasse usar o banheiro? 

Em 2020, o Grand Plaza Shopping, na região central de Santo André, inaugurou o banheiro unissex com mais de 40 cabines. Enquanto isso, na Bahia a instalação de uma simples placa já foi o suficiente para causar uma histeria coletiva, quando no ano passado o Parque Shopping Bahia, localizado em Lauro Freitas na região metropolitana de Salvador, fora alvo de ataques na internet após instalar placas contra a transfobia em banheiros do centro comercial. As placas contavam com a seguinte mensagem: “Todos são bem-vindos. No Parque Shopping Bahia você é livre para usar o banheiro correspondente ao gênero com que se identificar. Transfobia não!”. Elas foram retiradas depois da polêmica levantada na internet.

Apesar de toda a discussão, o uso do banheiro conforme a identidade de gênero é um direito garantido pela Justiça para pessoas trans e travestis há pelo menos sete anos. A resolução federal de nº 12, de janeiro de 2015, estabelece que deve ser garantido o uso de banheiros, vestiários e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade de gênero de cada pessoa, tanto em espaços culturais, quanto de educação.

Restringir uma discussão com tamanha profundidade ao campo do moral-religioso-ideológico é ter uma visão míope diante de uma sociedade tão complexa. 

Fonte: Agência Câmara de Notícias

Por Elisa Marina 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Falas, robotizadas, pluralizadas e repetidas falas

 

Amarelo-Verde-Azul (1925) - W. Kandinsky 
Óleo sobre tela - Museu de Arte Moderna de
Paris. Uma abstração em arte da semiótica
da comunicação?

Compartilhe. Me segue lá. Comenta. Ative o sininho. Avise os amigos. Chame os amigos. Compartilhe com os amigos. Deixe o seu like.  Curte. De que cidade você fala? 

Cola.

Mande um zap. CPF na nota? Se levar dois tem desconto. Não quer levar dois? Leva dois e parcele em três vezes. Preenche o cupom.

Bora.

Anote o protocolo. Vou passar para o setor responsável. Paga no pix. Me passa o seu pix. Anota o meu pix. Qual é o CPF pra ver se tem desconto?


      Life Smartphone, animação curta-    metragem criada pelo cineasta chinês Chenglin Xie, e que mostra por que o vício em smartphones pode matar você. 


Zap

Qual o seu zap? Passa um zap. Vou mandar áudio. Me envia pelo whats. Vou te mandar print. Posso ligar? Vamos por vídeo. 

Dá um salve.

Tem que engajar. Se inscreva no canal. Link na bio. Compartilha. Qual o seu Insta? Emoji. Gif. Link. Avatar. Foto de perfil. Foto de capa. Story. Stories. Status. Reels. Turbinar a publicação. 

Se as expressões acima lhe fizeram algum sentido é porque você não está tão desconectado ou desconectada do mundo. No entanto, para os que passaram dos trinta e muitos anos de idade, é provável que já tenha percebido que vai ficar cada vez mais raro ouvir um “me passa o seu telefone fixo”. 

A inteligência que conecta os humanos uns aos outros é um artifício de singularidades indecifráveis aos sujeitos passivos a ela. Como aquela canção de Paulinho da Viola, não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Somos navegados por algoritmos, e nessa condução cremos num poder de decisão acima dessa lógica que já está posta. Logo, faço porque todo mundo faz, e aqui com ou sem inversão da oração subordinada adverbial, mesmo porque o sentido vai ser sempre o mesmo, e no final das contas está todo mundo buscando o mesmo, o engajamento, que nada mais é que alcançar o maior número de seguidores possíveis para que seu produto, sua marca, ou mesmo você se torne um negócio lucrativo. A mamãe que filma e publica as primeiras palavras da criança gerando assim milhares de seguidores desperta o interesse do banco privado e de tantas outras mães que veem graça nas peripécias de seus rebentos. E quem aqui liga para os efeitos futuros dessa excessiva exposição a que crianças estão submetidas ante um futuro dominado pela inteligência que recria rostos e perfis para então publicá-los em sites de interesses escusos?

Curta, comenta, compartilha, afinal a imposição é a serventia da casa, e a obediência, uma obrigação do seguidor, afinal se todos fazem, por que não fazer?


Sobre a obra abstrata de Wassely Kandinsky


Considerada sua obra prima,  Kandinsky mescla as cores primárias de amarelo, vermelho e azul em complexas nuvens de cor, que se sobrepõem e se cruzam sem um padrão, e não formam objetos claramente identificáveis. Em muitos aspectos, essa liberdade de movimento foi uma síntese dos muitos novos movimentos artísticos em erupção na década de 1920. 

As formas se tornam imagens celestiais, desaparecendo e reaparecendo à medida que elas fluem pela tela, mudando de cor e lutando entre si pelo domínio. Pode-se claramente experimentar a crença de Kandinsky de que formas e cores tinham a capacidade única de explicar o invisível e o imperceptível. Como o próprio artista escreveu certa vez:  “A criação de uma pintura é a criação de um mundo.”

Por Elisa Marina 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Ao Deus arte, a viva vida de Zé Celso

Zé Celso durante a Mostra de
Teatro de Suzano, que ocorreu
ano passado/ Foto: Elisa Marina 
Por um mísero pedaço de chão, o todo-poderoso dono do baú trava na justiça uma batalha de anos contra o dramaturgo Zé Celso, que agora luta incansavelmente contra a morte no Hospital das Clínicas, pelas queimaduras em decorrência de um incêndio em seu apartamento na manhã de ontem. 

Já disse o quanto admiro esse artista que ultrapassa todas as fronteiras da liberdade do corpo e da mente para fazer jus ao teatro que idealizou com o seu Oficina, fundado em 1958.

De um lado, seu sonho verde de um parque no Bixiga, do outro, mais um empreendimento cinza a fazer a fortuna de SS aumentar mais e mais e mais. Figuras expoentes, cada qual em seu ofício, e que deixam em evidência o abismo colossal que há entre visões de mundo opostas. Dinheiro e arte não falam a mesma língua, o Deus dinheiro é incapaz de ouvir o Deus arte que, por sua vez, reivindica tão pouco ao Deus dinheiro para existir, que dirá resistir. 

As horas, os meses, os anos que se levam para produzir um texto, daí a produzir um espetáculo, para finalmente fazê-lo brilhar no palco de um teatro, não se traduzem em ganhos financeiros, pelo contrário, ficam tão abaixo disso que num instante final aceita-se qualquer merreca, porque o prazer de dar corpo ao idealizado em mente, e de modo tão solitário, supera a insignificância que donos dos baús da vida subjugam o artista. 

Triste sociedade que valora o concreto e da às costas para a poesia, que enxerga a geração de empregos pelo viés do mercado da produção de bens tangíveis que não o da literatura que provoca o desconforto, que endeusa os CEOs e diminuiu os SEUs Oh dramaturgos, que inutiliza IPhones tão facilmente e nem utiliza sabiamente as salas de teatro, que paga altos preços pelas cadeiras das arenas de futebol, e nem sequer se aproxima das arenas dos picadeiros onde se produz a arte das trupes mambembes. 

Em seus mais de oitenta anos de existência, a maior parte dele ouvindo mais aplausos que vaias, talvez o solo do chão paulistano seja mais fértil por onde pisou Zé Celso e nele despejou sementes do que aquele concretado pelas máquinas dos megaempresários que em deboche jogam notas de real em dobraduras de avião, e isso não tem nenhuma graça artista. 

Muitos vivas à arte, e a arte de ser de Zé Celso a própria arte. 

Textos e foto: Elisa Marina 

sábado, 27 de maio de 2023

Arte em vidas tatuadas pelas mãos de Edson Canela

 

A arte de Canela também se revela nos 
 quadros de pinturas a óleo/ 
Foto: Arquivo Pessoal

Partindo de uma filosófica análise sobre o próprio trabalho, em que tatuagem não é arte sobre arte, e sim, arte em vidas, Edson Canela, ao longo de seus quarenta anos de profissão, tem dado vida à sua arte nas mais de três dezenas de milhares de corpos que se fizeram – e se fazem – de telas para que um novo desenho ganhasse vida. No entanto, seria razoável dizer que tatuagem é uma sobrevida arte que se mantém viva até a finitude da tela que se permitiu tatuar, no entanto, como toda e qualquer manifestação artística, ela também sobrevive à existência do próprio artista, mesmo que nela este não imprima uma assinatura.

Tomo a liberdade de dizer que tatuagem é a arte sem identificação do artista, porém há ali uma cumplicidade entre tela e tatuador, e nesse caso pode-se afirmar que ter sido pioneiro e único tatuador por cerca de quinze anos e num tempo em que rebeldia e tatuagem andavam de mãos dadas, Canela tem voz consistente para traduzir as palavras e ideias em uma arte, conforme ele mesmo se descreve.

LABAREDA CARMIM - Um dia, seu corpo é uma tela em branco. Aí então você decide e, com muita insegurança, faz uma pequena tatuagem. Gosta. Faz outra, mas ouve falar da tal lenda que diz que “dá azar ter tatuagens em números pares”. E então, quando vê, já são cinco, sete, dezenas... Que vício é esse que nos atenta a deixar de lado a incômoda dor que o processo de tatuagem causa para tatuarmos tantas outras vezes o nosso corpo?

Sua especialidade é em tatuagem tradicional,
em preto-sombra e free-hand/
Foto: Arquivo Pessoal

Canela – No meu ponto de vista, geralmente, a pessoa pensa muito em relação à primeira tatuagem, [através da qual] ela quebra os próprios preconceitos, pois sempre tem alguém da família que é contra. Existe certa barreira com essa primeira tatuagem. É muito bom que a primeira seja feita de espontânea vontade, porque aquele que faz por fazer está sujeito ao arrependimento, aí faz a primeira, geralmente é pequena, embora hoje em dia nem tanto. Mas se ela escolheu um bom profissional e fez uma bela tatuagem ela acaba partindo para outras. Nesse sentido, não escolher bem, ou fazer por impulso é bem perigoso. A dor é superável pela vontade de fazer, e pra quem já fez sabe que não é uma dor assim tão grandiosa. No entanto, a mulher é mais resistente a dores do que os homens.

Não vejo como um vício [optar por várias tatuagens], mas como uma superação aos medos e dúvidas iniciais, o que agrega alguma força de vontade de querer repetir. Além disso, números pares não dão azar. É pura lenda.

LC- A pergunta acima tem a ver com a minha história. Fiz a primeira somente aos 27 anos de idade, talvez afetada por falas preconceituosas, que vão desde crenças religiosas, passando por preocupações com certo rigor social que pode haver num ambiente de trabalho, e chegando ao extremo de que a pele na velhice alteraria para pior o desenho feito na juventude. Claro que hoje, em 2023, muitas dessas falas ficaram para trás, mas para além da arte, tatuagens são também um acalento para a autoestima, quando camuflam uma cicatriz ou por reconstruírem a auréola do seio que retirou um câncer. Ainda assim você percebe que esse preconceito está restrito, hoje, a uma parcela ínfima da sociedade?

Canela – É, você teve uma cuidado de esperar até os seus 27 anos para que você estivesse mais madura no que você fosse escolher. Há falas preconceituosas, crenças de algumas religiões, e o social também, que inclui a família, sempre tem os que irão falar, e no ambiente de trabalho também... Se bem que isso aí [mercado de trabalho], cerca de vinte anos atrás, [o preconceito] era bem pesado. Por causa de uma tatuagem, você era prejudicado no serviço. Hoje, eu vejo que tem ainda o preconceito, mas ele é muito mais velado, porque a tatuagem atingiu a mídia e acabou se popularizando bastante. Antigamente também era muito difícil ter um tatuador. Aqui em Mogi, eu fiquei, por mais ou menos, uns quinze anos praticamente sozinho, não tinha outra pessoa que fazia tatuagem. Então, essa região do Alto Tietê inteira, praticamente tinha [o meu trabalho] como referência, o que propagou bastante a minha arte, e a quantidade enorme de tatuagens [mais de 27 mil] que eu já fiz deve-se a esses quinze anos com ausência de outros tatuadores. Hoje na cidade, se você for ver, tem cerca de 350, 400 lojas cadastradas. E isso tende a crescer também.

Com mais de 30 mil tatuagens feitas, seu 
diferencial é a arte corporal e filosófica/
Foto: Arquivo Pessoal

Sim, tatuagens acalentam a autoestima, desde que bem feita e agrade a pessoa que fez, o que incentiva a querer ter mais. Ressalto que é sempre importante escolher um bom tatuador. Já as tatuagens reparadoras agregaram valor à arte [de tatuar] foi bem aceita.   

LC - Tatuagem é fase. O desenho que te apaixonou aos dezoito anos de idade, pode vir a te constranger na fase adulta. No entanto, ela é parte da sua história, daquilo que te encantou no passado. No entanto, há profissionais que se recusam a recriar uma arte a partir de um  trabalho feito por terceiros, se não for esse o seu caso, poderia dar um exemplo de um caso sobre arrependimentos que tenha te marcado?

Canela – Sim, tatuagem é fase. Quando se é mais novo, o seu conhecimento é restrito, e geralmente a tatuagem é influenciada pelo tipo de vida que se vive, que pode ser por uma banda, ou para quem curte motociclismo. Hoje a área está muito diversificada, há artistas que vão para a área dos comics, do preto-sombra, das fotografias realistas... E tanto o jovem, quanto o adulto tem que analisar direito o que se vai escolher, porque essa tatuagem irá acompanhá-lo para sempre.

No meu conceito, a parte mais importante é a que antecede a tatuagem, que é a escolha, porque é para a vida inteira. Por mais bem feita que seja, a nossa pele envelhece, então vai causar algum transtorno nela também, como um desgaste de tinta, a própria pele vai criando rugas a depender do local, enfim, a pele se modifica, e a tatuagem se desgasta. Isso é um fato científico que não tem como fugir [risos]. Mas se é bem escolhida, ela te acompanha com a história que você implantou nela. Porém, o tatuador não deve ser responsável pela escolha e nem pela história da tatuagem, pois isso cabe ao cliente saber falar e pedir.

[Por outro lado] o tatuador está longe de ser um psicólogo, que vejo como uma área mais avançada, embora as pessoas conversem sobre suas vidas até no decorrer da tatuagem, talvez pelo grau de confiança que adquiri ali na hora que está fazendo, mas tem que ser bem filtrado, e não é o que eu vejo na grande maioria. Porque a partir do momento em que o tatuador influencia e se não é bem informado vai passar ao cliente informações também não tão boas, e assim vai ficar, porque o cliente permitiu. Isso é um grau de entendimento e compreensão de cada um. Eu, geralmente, procuro saber a respeito do que a pessoa quer fazer, porque eu tenho argumentos para analisar os desenhos com perguntas mais assertivas. E muitas vezes,  também, no decorrer dessa entrevista, eu consigo remodelar a ideia da pessoa. Ela chega com uma ideia e acaba levando outra. Quero ressaltar que em todas as minhas entrevistas para a imprensa, eu falo que o arrependimento com tatuagem é grande, porque não se escolheu um bom profissional, não soube falar direito o que queria. Tem tatuagens que exigem os estilos certos, por exemplo, traço fino ou traço grosso, um sombreado mais leve, um sombreado mais claro ou mais escuro, tudo isso é superimportante. As tatuagens coloridas são as que mais perdem a cor com o tempo, já a preto-sombra é mais durável por causa da nossa pele, do sol, do envelhecimento. Portanto, a preto-sombra é menos agressiva à pele, tem maior durabilidade, e quanto mais bem feita mais duradoura, e isso eu comprovo. Por exemplo, cores claras, num país como o Brasil, com um sol intenso, e com uma grande predominância de pessoas de peles morenas, a tatuagem colorida se adapta melhor em peles claras, com maior durabilidade. Já na pele negra, não se usa cor nenhuma, pouco sombreado, e não podem ser traços finos. Existe uma ciência para isso. E hoje, poucos tatuadores sabem disso, o negócio é pegar uma maquininha, e aplicar a primeira técnica que é fácil, já o aprofundamento, não. Eu tenho quarenta anos de tatuagem e continuo estudando. Essa semana mesmo, eu comprei um curso de um tatuador cuja arte eu admiro, pra aprender a técnica de tonalização do preto-sombra que ele usa, eu achei muito interessante para então aplicar nas minhas técnicas. Ou seja, quanto menos cuidado tiver, maior o arrependimento em tudo.

Outro fato, com essa demanda de pessoas que falam que fazem tatuagem, estes começam a fazer, fazem por dois ou três anos e depois param. Eu não posso julgar que essa pessoa fez algo errado, mas duvido que estudou ou que gostava do que fazia, que se aprimorou em técnicas, porque a partir do momento que está fazendo e recebendo por isso, passa a ser um trabalho. Ter referências sobre o tatuador é muito importante.

Os tatuadores mais gabaritados costumam ter preços mais caros que o normal. Isso é uma diferença enorme, e como a tatuagem se popularizou, as pessoas são influenciadas por preços. Por exemplo, o valor mínimo que eu cobro por uma tatuagem, eu já vi tatuadores que estão no mercado oferecendo quatro, cinco tatuagens pelo mesmo valor que eu cobro uma pequena. Então, a pessoa que não quer tomar cuidado nenhum, por que irá procurar um tatuador gabaritado para fazer uma tatuagem pequena se com um valor de uma ele poderá fazer cinco? E isso também [preço baixo] é um convite para fazer várias tatuagens. E é um perigo também, pois muitas vezes você está agindo pela emoção ou pela empolgação, aí sim você vai precisar de um psicólogo. Falo por experiência vivida pelos meus clientes, uma vez que o número de pessoas que me procuram para cobrir uma tatuagem é muito grande.

LC - Determinadas tatuagens são tendências de uma época. Lembro que no passado, anos 90 talvez, a moda eram as tatuagens tribais, embora seja muito provável que muitos nem sequer soubessem seus reais significados. Qual é o modismo dos últimos anos?

Canela – A tatuagem também acompanha um modismo, como você citou, tempos atrás eram as tribais, depois elas foram se modificando com o tempo, aparecendo outros tipos. Fazer sem saber seu significado tem a ver com o preço, ou com outras questões que não são vistas com seriedade, e de ambos os lados. Uma vez na minha equipe tinha um tatuador a quem eu questionei em reservador sobre o porquê [de optar por] àquele desenho visivelmente feio se haviam tantas outras opções mais bonitas. E então ele respondeu que havia sido uma escolha do cliente. Aí eu argumentei dizendo a ele que o meu estúdio obedece a determinadas regras, e dentro daquela proposta [da escolha do cliente] havia outros desenhos mais bonitos. Ainda assim ele foi categórico em afirmar que não havia nada a ser feito porque aquela era uma escolha do cliente. Ao final daquele trabalho, eu o demiti porque aquele não é o modelo de funcionamento do estúdio. Porque a minha preocupação é evitar um futuro arrependimento do cliente. E é um gasto a mais no caso de refazer uma tatuagem, mesmo porque ao refazer não se tem a mesma qualidade do que aquela que você tem para fazer numa pele sem nada por baixo.

LC - Um tatuador é um psicólogo em potencial? Há quem chega até o seu estúdio sem ter a menor ideia do que tatuar, e a partir de uma conversa, você traça um perfil daquele cliente e juntos chegarem num consenso de qual desenho melhor atende aquela expectativa?

Canela – Muita gente se coloca como um psicólogo do cliente. Eu acho um erro imenso, porque a psicologia eu vejo de uma parte muito importante, vejo que é um estudo muito legal pra que se acerte a pessoa ao seu centro. Então, um bom tatuador pode ter uma análise legal dentro do perfil da arte e o que a pessoa quer, mas denominá-lo como psicólogo, não. O tatuador tem que ser criativo, ser artista, e trabalhando com boa-fé em relação ao cliente, vai ter uma boa criatividade e vai chegar num consenso bem legal naquilo que melhor atende a expectativa do cliente. Mas não vamos levar para esse lado psicológico que vai alimentar o que eu não acho nada legal. Cada um na sua área, e muitas vezes tatuador não tem estudo nem de desenho, vai fazendo com informações através do Youtube, Instagram... Então, entre tatuador e psicólogo vamos colocar algo muito distante entre um e outro. Tatuador tem que ser artista e ter uma boa criatividade, aí ele está num bom caminho.

LC - Conforme seu perfil no Instagram, são mais de trinta e sete anos de profissão, com mais de 27 mil tatuagens espalhadas por aí, dentro desse percurso, e embasado por uma ética pessoal, que tipo de trabalho você não se autoriza fazer?

Canela – Devido ao tempo que tenho de tatuagem, e de uma boa escola que eu tive, pois comecei em 1984, com pouquíssimas informações, e de lá até próximo de 1990, eram poucos tatuadores. Eu, aqui em Mogi, alguns em São Paulo, onde tive o privilégio de conhecer uma equipe de italianos que trabalhavam por lá, e eles estavam com o intuito de divulgar a tatuagem no Brasil, e como eram de outro país, com outra cultura, eles divulgavam a tatuagem como arte, tanto que na minha época foram muitos preconceitos com pessoas tatuadas e  quem fazia tatuagem também era mal visto. Por isso que a grande maioria dos profissionais respeita quem veio lá de trás. Hoje é muito fácil, há ótimas máquinas, ótimos materiais, agulhas perfeitas, desenhos perfeitos, aonde você procurar encontra informações.

Eu saí de Mogi porque eu tinha conhecimento de um tatuador chamado Marco Leone lá em São Paulo. Não se tinha telefone, nem internet. Era preciso pegar ônibus e ir pra São Paulo e  tentar encontrar qual era o bairro porque não era divulgado, era muito restrito. Depois desse contato, fui recomendado a fazer cursos de desenho, estudei na Escola Pan-Americana de Artes, no Liceu de Artes e Ofícios, aqui em Mogi estudei com o Vitor Wuo, grande artista que me ensinou muito em desenho. E estudo eu faço até hoje, desde 1984 até hoje. Então o interesse do tatuador vai com esse amor à arte que ele tem. Isso não é modismo. Eu participo de convenções internacionais onde se discutem novas técnicas, quem vem de fora traz sempre uma novidade. Existe um intercâmbio onde, por exemplo, eu posso trabalhar em outros estúdios, ou seja, tudo isso tem um investimento financeiro e de tempo. Acaba sendo uma vida direcionada a essa arte. Não é à toa que um ou outro acaba adquirindo nome. O que eu tenho investido em feiras e eventos, é um valor que chega à casa das centenas de milhares de reais, além disso, meu estúdio equipado e atende às normas da Secretaria de Saúde. Não é ser um “tatuador modinha”. E veja, não há nada de errado, essa pessoa não está fazendo nada de errado, porque vamos lembrar, quem escolhe é o cliente, logo a responsabilidade é de quem escolheu. Você tem hoje os bons, os médios, e os não tão bons.

Eu não faço trabalhos que denigrem a imagem da pessoa, frases que não são positivas, porque eu não preciso ser compatível com a rebeldia ou com algo que não seja produtivo para aquela pessoa, e que posso denegri-la e ela não tem noção disso. Olha só o que eu aprendi em 1990 com a equipe italiana: evite fazer coisas como times de futebol, denominações religiosas, nomes de pessoas, com exceção de pai, mãe e filhos que são definitivos na vida, porque isso são escolhas passíveis a mudanças, ou seja, você está sujeito a mudar de religião, de times, não gostar mais de determinada banda, isso acontece com todos nós. Portanto, evitar esse tipo de tatuagem é sempre bem-vindo. E para explicar isso, e o cliente aceitar é necessário ter conhecimento. Por outro lado, pode-se fazer algo que não seja tão grande ao qual a cobertura não seja tão difícil, aí é possível para a pessoa curtir aquele momento e se vier a se arrepender já fica acordado com o tatuador uma cobertura da mesma. Embora haja no mercado o laser, não é certo dizer que o laser apaga a tatuagem por completo, porque assim que se retira a tinta da pele, vai ficar uma marca, um registro de onde foi tirado.

LC - Em dezembro do ano passado, por determinação judicial, o tatuador Neto Coutinho foi obrigado a cobrir a tatuagem do rosto de uma criança negra feita durante a convenção Tattoo Week do mesmo ano. A polêmica se deu porque o tatuador usou sem autorização da família do garoto nem do fotógrafo Ronald Santos Cruz a fotografia de uma criança de onde originou a tatuagem. Qual é sua análise sobre caso? A ação judicial foi uma censura ao trabalho artístico, ou independente da arte, ou cabe ao tatuador antes procurar obter informações sobre uma foto cujo cliente não tem qualquer grau de parente com o fotografado?

Canela – Com relação a essa polêmica é o seguinte. Através da internet, a gente pode pegar várias imagens. Agora, é muito bem-vindo quando você pegar uma imagem colocar o crédito da imagem, o que não foi o caso. Praticamente quem acionou isso não foi a família, foi o fotógrafo através dos direitos que ele tem. E se ele tinha direito, e ao ver que o evento era gigantesco – é o maior evento que se tem no país – usou da ação judicial para requerer os direitos que ele tem, porque não foram colocados os créditos, muito menos foi pedida uma autorização. Porque geralmente se está na internet, e você quer usar, entra em contato com o fotógrafo, e é muito difícil [o profissional] negar. Se ele negasse, não estaria ali na internet para todo mundo ver, ou teria alguma especificação de direitos autorais. Mas cabe a ele o direito de requerer legalmente o direito que é dele.

Edson Rodrigues Pereira, conhecido como Edson Canela, é artista, tatuador, filósofo e espiritualista. Dedica-se há quarenta anos à arte na pele. Faz parte da segunda geração de tatuadores do Brasil, com especialização de novas tendências, como na arte corporal e filosófica. Participou da 1ª Convenção Internacional de Tatuagem do Brasil, em 1990. Hoje, costuma ser convidado para diversos eventos no Brasil, como tatuador ou jurado.

Por Elisa Marina

terça-feira, 23 de maio de 2023

A bolha e a placenta, aconchego e acolhimento

 

O Mito da Caverna é uma alegoria narrada por
Sócrates que ilustra a busca pela verdade/
Ilustração: Sociologia Líquida

Numa comparação metafórica, poderíamos dizer que a bolha está para o sujeito assim como a placenta para o bebê, pois no aconchego e no modo passivo em receber os nutrientes responsáveis pelo seu desenvolvimento biológico é que a vida intrauterina se desenvolve. Nos grupos sociais, que podem ser tanto de ordem religiosa quanto política e até culturais, as informações circulam num ambiente acolhedor e aconchegante aos sujeitos pertencentes a estes grupos, que as recebem de modo passivo e acolhedor, abrindo caminhos para a confirmação de um pertencimento nos mesmos, formando, assim, uma bolha. Compactuar com as falas, copiar modos de agir e se vestir dos demais integrantes do grupo, é fazer valer esse pertencimento, que fora dele, desse organicismo vivo, cabe ao indivíduo buscar por meios próprios a fim de garantir a sua existência. Um feto não se desenvolve fora da placenta, logo um indivíduo é capaz de subsistir alheio aos grupos sociais? 

Tomando como exemplo o Mito da Caverna* contado por Sócrates na obra A República, de Platão, somos muitas vezes pessoas que estamos trancafiadas dentro de uma caverna, amarrados com correntes pelos pés com a incapacidade de virar a cabeça para a abertura da caverna. E nós estamos olhando para a parede, atrás de nós tem uma pequena mureta onde passam pessoas com coisas, só vemos a sombra das coisas na parede. Como tem ruído, a sensação é que essas coisas que estão na parede falam e têm vida. Um dia, conta Platão, uma das pessoas que estava na caverna escapa, conseguindo romper com o grilhão que a mantinha por lá. Conforme explica o filósofo Mario Sérgio Cortella, no episódio Bolha do podcast A Grande Fúria do Mundo, “qual é a primeira coisa que acontece quando você sai de uma caverna? Perde a capacidade de enxergar, porque a luz do sol é forte. E a tendência de quando se sai da caverna, ou da bolha, é querer voltar correndo para dentro dela porque o mundo externo é muito desconfortável, fere a visão, fere a percepção. Quando você vai pouco-a-pouco se habituando [com o mundo externo] e vê que o que está fora da caverna também existe e, muitas vezes, é mais autêntico do que aquilo que está dentro da caverna, e se você é alguém que tem afeto pelas pessoas que ficaram, você volta pra dizer a elas que o que está na caverna não é verdade, ou não é tão-somente uma única verdade. E qual é a consequência disso tudo? [As pessoas da caverna] matarem a pessoa que voltou, pois esta busca (para o grupo) tirar a ilusão [verdade] de suas crenças”.

No livro Conformismo, Charles A. Kiesler e Sara B. Kiesler, dentro da perspectiva da psicologia social, discorrem sobre a influência do pertencimento em grupos a partir de dois efeitos, a obediência e a aceitação íntima. Como exemplo, os autores iniciam o livro com uma nota publicada em setembro de 1954, num jornal no norte dos Estados Unidos, que dizia o seguinte: Profecia de Planeta. Clarion diz à cidade: fuja dessa enchente, ela nos atingirá no dia 21 de dezembro. É o que o espaço diz a uma habitante de nosso subúrbio.

A profecia tinha sido dada por uma “Sra. Keech”, que afirmava não ser sua, mesmo assim conseguira reunir alguns seguidores que também acreditavam na profecia e se preparavam para o grande acontecimento. Quando em 21 de dezembro não houve a tal enchente, muitos deixaram o grupo. No entanto, as pessoas mais comprometidas com a profecia não apenas resistiram em suas crenças depois desse desmentido, como também começaram a recrutar novos crentes e novos membros para o grupo.

Todos nós pertencemos a grupos de pessoas. Além disso, tais grupos influem em nós. Nosso comportamento e nossa atitude se modificam a medida que interagimos com os outros. Nem todos os participantes do círculo da Sra. Keech acreditavam em sua profecia. Alguns eram cépticos mas tinham outras razões para agir de acordo com o que era esperado e exigido pelo grupo. Os dois tipos de pessoas – os cépticos obedientes e os crentes verdadeiros – eram conformistas, pois apresentavam alguma forma de mudança na direção das expectativas do grupo. Esses dois tipos de conformismo foram denominados pelos psicólogos sociais como obediência e aceitação íntima.(...) A obediência refere-se ao comportamento explícito que se torna mais semelhante ao comportamento que o grupo deseja que seus membros apresentem, independentemente das convicções íntimas do ator. A pessoa se comporta como o grupo deseja que o faça, mas, na realidade, não acredita naquilo que está fazendo. A aceitação íntima refere-se a uma mudança de atitude ou crença, e na direção das atitudes e crenças do grupo. Nesse caso, a pessoa pode, não apenas agir de acordo com os desejos do grupo, mas também mudar suas opiniões, de forma que passe a acreditar naquilo que o grupo acredita.

O nascimento é um processo doloroso que obriga o bebê a deixar para trás o seu pequeno e recluso mundo, sua caverna, e romper com a placenta, sua bolha, que até então o mantinha vivo, para a partir de então aprender a viver fora dela. Assim somos, depois de sairmos dessa placenta, e uma vez crescidos continuamos enlaçados a bolhas de aconchego em busca de pertencimentos; romper com os grilhões que nos mantém vivos nesses grupos é um processo de dor, por isso vai de cada um perceber quando é a hora do próprio parto, mas claro, desde que se queira nascer.

*O Mito da Caverna, de Platão, contada por Sócrates, é uma alegoria que ilustra a natureza da realidade e a busca pela verdade. Na história, Platão descreve um grupo de pessoas que foram criadas e vivem em uma caverna desde o nascimento. Todos estão acorrentados, com as cabeças viradas para a parede, sem poder mover-se ou ver a luz do sol. O único mundo que conhecem é aquele que elas enxergam projetado na parede da caverna. Ou seja, a única realidade que os habitantes da caverna vivencial são as sombras dos objetos que passam em frente a uma fogueira. Eles não têm conhecimento do mundo exterior. No entanto, quando um dos prisioneiros consegue se libertar e sair percebe que a realidade que ele conhecia antes era uma sombra da verdadeira realidade.

Por Elisa Marina

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Gentilezas a uma demanda para a subserviência

Bajulação que enlaça com uma demanda
para uma subserviência

O coach idealiza e persuade. Aquele que o escuta, convocado à ação, aceita sem questionar. E então novos modelos de atendimentos são estabelecidos nas relações comerciais, onde afeto é a palavra da vez. Sai o velho conceito de insistir na venda dentro de uma abordagem formal e direta entre os sujeitos para dar entrada com vistas a criar meios de afeição ao outro, no caso o cliente,  a fim de tocar em seus afetos para daí extrair o objetivo final, que é a venda. Logo, o café cordialmente oferecido traz, em última instância, a mensagem subliminar de que aquela gentileza irá receber como troca a compra de um produto ofertado.

Frente a esse competitivo capitalismo selvagem, onde a cada instante surgem novas práticas  com modelos de se buscar um diferencial frente ao concorrente, é preciso inovar para se destacar,  vender para lucrar. E então chegamos ao admirável novo mundo das gentilezas nos estabelecimentos comerciais, que só acontecem porque tem um apelo inscrito naquele a quem a cordialidade é direcionada.

O cliente entra, e o que antes resumia-se a um simples cumprimento entre as partes, hoje, mostra-se como abertura a laços afetivos. "Olá, bom dia. Me chamo Jéssica, e você, meu amor?". Sim, sou o amor de quem sequer conheço, e esse tal "amor" será repetido à exaustão até a finalização da venda. "Quer um café? Procura o que?". Estou numa farmácia e o tratamento me faz lembrar uma loja de sapatos. "Quero uma amoxicilina de couro número 36", penso. "Me informa o seu CPF, amor, para ver se tem desconto". Aqui, o atendimento totalmente personalizado, me garante um desconto especial, e somente para mim, chupa invejosos. Qualquer semelhança com o cara que disse ter ligado para você e somente para você porque bateu saudades não é mera coincidência.

Na paquera com o caixa, também meu amor, (sou dele e ele é meu) ele também me pergunta pelo meu CPF, dessa vez me faço de difícil e digo que não vou lhe informar. Adoro quando eles fazem biquinho e me convencem da possibilidade de um desconto ainda maior. Como sou fácil.

Vou para a loja de roupas e por lá a suruba se dá assim que entro no estabelecimento, com muitos amores vindo ao meu encontro. "Oi meu amor". Vou dar uma olhada apenas. "Tudo bem, meu amor, qualquer coisa é só me chamar". Não chamo, estou no fundo da loja e fora do radar dela, mas próxima ao olhar do rapaz que elogia a minha bolsa dizendo que o modelo tem tudo a ver com a vestido no manequim sem rosto. "Estava te esperando". Um manequim sem vida intuía que eu entraria na loja para vê-lo?

Na doceria, a formalidade é elevada à quinta potência quando sou chamada de senhora. Logo hoje que coloquei essa botinha tão modernosa e uma saia nada casual? Sinto-me projetada à Colombo de 1920, com um casquete cinza discreto e um vestido longo esbarrando no chão de mármore. Pausa dramática. Sou uma mulher negra, na Colombo de outrora eu não estaria sendo servida, mas servindo a madames insuportáveis que me olhariam de cima abaixo e de quem aceitaria passivamente toda e qualquer petulância.

Voltemos a 2023, ano em que daqui uns dias serão completados 135 anos do fim de uma escravidão que durou quase quatrocentos anos  mas que até hoje da sinais de  que suas marcas não saírão da sociedade tão cedo.

Os casos acima mostram que a subserviência é muito mais uma resposta a uma demanda social do que uma crítica aos funcionários que para defender o pão de cada dia são obrigados  a obedecerem cartilhas de boas práticas na relação com os clientes. Vivemos num país com resquícios coloniais onde babás ainda vestem-se de branco mesmo que sua função exige interagir com a criança com brincadeiras que certamente farão sujar o uniforme de trabalho. Porém, seus patrões formam a massa dos sujeitos que ostentam seus títulos, com evidências claras de exigir uma subserviência daqueles a quem julgam como profissões inferiores. Ter do outro o agrado em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar a mercadoria, é preciso bajular o cliente.

"Sua compra foi recusada". Acho estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo na conta. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de amor na riqueza e na pobreza? Sou, então, tomada de uma saudade, quando o amor era declarado em um cartão, mas naqueles de papel.

Por Elisa Marina

  .  Porque vivemos num país onde babás ainda usam branco mesmo que para brincar - e se sujar - nos parques, com sujeitos que dizem de seus títulos muito mais do que de seus, carentes de paparicos e atenção. Ter no outro o papel daquele que lhe agrada em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar-se, é preciso bajular.
"Sua compra foi recusada". Ih, estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de na riqueza e na pobreza? Sou tomada de uma certeza: o amor


      .  Porque vivemos num país onde babás ainda usam branco mesmo que para brincar - e se sujar - nos parques, com sujeitos que dizem de seus títulos muito mais do que de seus, carentes de paparicos e atenção. Ter no outro o papel daquele que lhe agrada em demasia revigora egos antes reprimidos. Não basta apenas apresentar-se, é preciso bajular.
"Sua compra foi recusada". Ih, estourei o limite do cartão. "Aceitamos pix". Estou sem saldo. A cara de paisagem é um abismo entre nós. Cadê, agora, o amor? E os votos de na riqueza e na pobreza? Sou tomada de uma certeza: o amor

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Fátima al-Fihri, a muçulmana que criou a primeira e mais antiga universidade do mundo

 

Fátima al-Fihri, mulher muçulmana nascida
no ano de 800

Começou na África, e pelas mãos de uma mulher, o que se pensa, se sabe e se entende por ensino acadêmico, e mais precisamente na cidade de Fez, no Marrocos, que surgiu a mais antiga instituição de ensino superior do mundo - e ainda em funcionamento – a Universidade al-Quarawiyyinn.

Com a herança deixada pelo pai, um comerciante rico que se estabeleceu em Fez vindo de Cairuão, hoje Tunísia, e do marido, Fátima al-Fihri, mulher árabe e muçulmana, mandou construir, no ano de 859, uma mesquita que se transformou na famosa universidade. Fátima quis construir um edifício suficientemente grande para que houvesse espaço para toda a população, que crescia cada vez mais. A partir do século X, a mesquita de al-Qarawiyyinn tornou-se o primeiro centro de estudos religiosos e a maior universidade árabe do Norte de África, onde ocorriam regularmente simpósios e debates, uma vez que à época, mesquitas, além de locais de culto e caridade, também serviam de locais de estudos, logo, um espaço de disseminação do conhecimento.

A instituição tornou-se um lugar fomentador do saber, de interações políticas e sociais, e enquanto a Europa estava mergulhada no obscurantismo da Idade Média, em Fez já eram feitas importantes contribuições para a filosofia, matemática, engenharia, arquitetura, medicina, cartografia, e que só seriam descobertas pelo ocidente durante a Renascença. Um dos seus alunos ilustres foi o Papa Silvestre II, responsável por introduzir e popularizar os números arábicos na Europa e o conceito do zero.

A universidade criada por Fatima é, de acordo com a UNESCO e o Livro dos Recordes do Guiness, mais antiga que as primeiras universidades europeias, pois é considerada como data de referência o ano em que al-Quarawiyyin foi fundada como mesquita. Atualmente, a universidade oferece cursos de graduação, pós-graduação e programas de doutorado, e dispõe de cinco periódicos especializados.

Nascida em 800, até hoje a vida de Fatima al-Fihri é guardada de muitos segredos, inclusive a data da sua morte, porém seu legado deu nome, em 2017, à criação de um prêmio na Tunísia que visa apoiar iniciativas que encorajem o acesso das mulheres à formação profissional.

Por Elisa Marina

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Dançando nos campos do Senhor

 

Dança dos Anjos - Leonid Afremov

Cardiologistas recomendam. Endocrinologistas indicam. Neurocientistas orientam. Ginecologistas aconselham. Seja qual for o especialista, exercícios físicos são sinônimos de saúde na opinião de dez entre dez profissionais da área. Sabemos disso, e pode ser até que intuitivamente desde que nascemos, basta observar um bebê em seus primeiros meses de vida: mãos, braços, pernas e dedinhos exercitam-se mutuamente mesmo com o corpo em repouso. Portanto, a máxima é: quer viver mais e melhor, mexa-se!

Para um corpo que já experimentou a dança, para mim, optar por essa modalidade como meio de exercitar o corpo, não foi uma escolha muito difícil, mesmo depois de décadas de músculos adormecidos pela falta de uma rotina dançante. Agendo uma aula experimental na primeira opção que o Google me sugere, uma escola que ensina o Ballet Contemporâneo, estilo que eu nunca havia praticado.

O local é um espaço simpático que vou conhecendo na companhia da proprietária e diretora artística. No entanto, saber que em uma das salas locada acontecem reuniões de cunho religioso me causou certo incômodo, porque a cultura que eu acredito, credito, e valorizo, é a da arte livre e libertadora. Sem questionar, deixei de lado julgamentos precipitados e vi aquilo como um negócio que pudesse gerar lucro para a escola.

Sou apresentada à pessoa a quem coube fazer aumentar a lista de incômodos, a professora era nova e para minha surpresa as duas adolescentes com quem havia cruzado minutos antes no vestiário seriam minhas colegas de turma, isso já foi mais que suficiente para eu perceber o quanto destoante da turma eu era.

Antes dos primeiros passos de ballet, vamos aos primeiros passos sociais, as apresentações. Percebendo que eu estava longe de ser uma teenager, a professora não hesita em deixar claro que a minha inabilidade dançante não seria um problema. Eu já dei aulas em outras escolas, a minha aluna mais nova tinha uns seis anos, e a mais velha, uns 45. Palavras escritas são impossíveis de descrever aquele enfático QUARENTA E CINCO ANOS!

Começo a me arrepender por não ter atravessado as grades da janela, fugir teria me poupado momentos constrangedores que eu sabia que certamente viriam. “A minha aluna mais velha tinha 45”, a frase ainda sussurrava no ouvido quando interfiro dizendo ter três anos a mais que a aluna de 45 que eu sequer conheço mas de antemão me solidarizo por deixá-la no humilhante penúltimo lugar na escala sênior das alunas idosas.

Contudo, como humilhação pouca é bobagem, meus movimentos coreográficos desalinhados aos das fofoletes só confirmam que aquela não seria a minha turma, portanto, prefiro ser a aluna observadora do que a executora, e esperar ansiosamente pelo momento derradeiro, o relaxamento. Deitada, meu corpo nada cansado não tem do que relaxar, ao menos para dar à mente condição de elaborar o que foram esses noventa humilhantes minutos, e que culminariam na razão do título dessa crônica. Fechem os olhos! Ela ordena, e eu obedeço. Aproveitem para relaxar o corpo. Mais? Ah, eu esqueci de orar no começo da aula. ORAR? FOI ESSE O VERBO EMPREGADO? Ou então, ornar, certo? Eu orno, tu ornas, nós ornamos, e elas ornam pés e mãos.

Senhor, peço a ti que se manifeste através da arte. E uma sequência de blá-blá-blá frases religiosas de efeito coaching se sucedem. Saí de lá com os meus credos, o primeiro, aquele que sigo de forma íntima e pessoal, e o outro, o espanto de perceber como nossos corpos são conduzidos de modo que nem a sua vontade seja escutada. Ali, qual era - e ainda é - o meu desejo? Dançar! Mas não nos campos do Senhor.

Texto: Elisa Marina

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Marchinhas de Carnaval, a resistência de um gênero que atravessou os séculos

 

Chiquinha Gonzaga (1847-1935) foi uma
compositora, pianista e regente que com sua
obra mudou a história da música brasileira
Foto: Revista Galileu


Qual é o problema se é grande a cabeleireira do Zezé? Não importa o seu tamanho, não convém cortar a força o cabelo de Zezé, assim como querer beijar a Colombina sem que ela leve o Pierrô a mal simplesmente porque é Carnaval.

Se o parágrafo acima lhe pareceu confuso talvez seja porque Carnaval para você esteja desassociado às históricas marchinhas, gênero de música popular que foi predominante no Carnaval dos anos 20 aos anos 60, sendo a primeira, Ô Abre Alas, uma composição de 1889 de Chiquinha Gonzaga, e feita para agregar ao cordão carnavalesco Rosas de Ouro.

De origem portuguesa, as marchas carnavalescas são descendentes das marchas populares portuguesas e partilham com elas o compasso binário das marchas militares embora bem mais acelerado. Porém, inicialmente as marchinhas eram calmas e bucólicas, mas a partir da segunda década do século XX elas passaram a ter seu andamento mais acelerado. Isso aconteceu devido a influência da música comercial norte-americana, a qual vivia na era do jazz. Somente em 1952, o país produziu cerca de 400 músicas de Carnaval. 

E embora nos dias de hoje composições de marchinhas carnavalescas não estejam tão em voga, dar novos arranjos à composições antigas é fazer com o que o gênero resista ao tempo. Um exemplo é a música Sassaricando, marchinha de 1952 que em 1987 ganhou uma roupagem nova na voz da roqueira Rita Lee para a abertura da novela de mesmo nome.

Características

Temas como o amor, política, crítica social, profissões e homenagens são constantemente abordados dentro das marchinhas, com algumas peculiaridades: compasso binário, letras pequenas e simples, sentido ambíguo, facilidade no entendimento e memorização, humor, melodia simples, crítica social e política, ironia e escracho.

As inscrições podem ser feitas diretamente no 
Casarão das Artes ou de modo virtual 
(no link que segue na matéria)
Foto: Secop Suzano

Concurso

O Concurso de Marchinhas Carnavalescas – Edição Alto Tietê, que este ano homenageia o sambista Monarco, é promovido pela Secretaria de Cultura de Suzano, e encerra suas inscrições às 17 horas do próximo dia 31.

O objetivo do concurso é fomentar a produção do gênero musical, tornando possível ainda a revelação de talentos. Cada participante pode registrar uma composição no Prêmio Monarco. É necessário escolher entre uma música de liricidade poética ou uma letra voltada ao cotidiano. É possível também de inscrever duas marchinhas em cada categoria e concorrer ao Prêmio Pratas da Casa que, dentro da análise geral, irá eleger as melhores produções exclusivas da cidade. Haverá premiações em dinheiro para os três primeiros colocados. 

O prefeito em exercício e secretário de Cultura, Walmir Pinto, enfatiza que “serão aceitas apenas músicas e temas inéditos, ou seja, que não tenham sido veiculadas ao público em desfiles de Carnaval, outros concursos ou nas rádios. Ressaltamos também que não será permitida a inclusão de mensagens racistas, homofóbicas, misóginas, antidemocráticas e ofensivas”.

Inscrições pessoalmente ou on-line

Casarão das Artes 

Rua 27 de outubro, 271 – Centro - das 9h às 17h

Formulário: bit.ly/PremioMonarcoForms


Fonte: Nova Brasil FM

Texto: Elisa Marina